Ajax é o modelo sem censura de PewDiePie, e ele ainda não está disponível para baixar
Felix Kjellberg publicou no dia 30 de setembro um vídeo no canal dele do YouTube chamado I seriously should NOT be dropping this, que passou de 2 milhões de visualizações em dois dias. Nos 17 minutos de gravação o youtuber mostra o Ajax, um modelo de IA que ele ajustou para rodar dentro do Odysseus, o espaço de trabalho auto-hospedado que lançou em junho, e conta que a OpenAI desligou a conta dele duas vezes durante o processo.
O Ajax não sai do zero. A base é o Qwen3.5-9B, modelo aberto da Alibaba com 9 bilhões de parâmetros e licença Apache 2.0. Kjellberg pegou esse modelo aberto, aplicou treino adicional para ele entender as ferramentas do Odysseus e gravou o resultado com o nome de Ajax, versão um.
O link que o vídeo chama de download não entrega modelo nenhum. O endereço traz uma página pedindo que as pessoas doem dados de treino para o Odysseus, com a promessa de que o Ajax sai quando estiver pronto. O contador regressivo que marcava o lançamento para as 8h25 do horário japonês de 3 de outubro saiu do ar, e o próprio Kjellberg escreveu que decidiu publicar o Ajax quando estiver pronto, sem manter o prazo.
O que o e-mail da OpenAI mostra
A parte que ele detalha com print na tela é a sequência dos dois desligamentos. O primeiro e-mail, datado de 27 de agosto e sem ano visível, diz que a conta foi desativada por atividade ligada a destilação, o nome que a empresa dá ao treino de um modelo menor com as respostas de um maior. Ele conta que reclamou, recuperou o acesso e, depois de rodar o modelo da OpenAI para gerar os exemplos iniciais do Ajax, foi desligado de novo.
O motivo do primeiro desligamento aparece no documento que ele exibe. O do segundo é palavra dele, e a OpenAI não confirmou nenhum dos dois nem dizia publicamente nada sobre o assunto. O que existe é a regra geral dos termos de uso da empresa, que proíbe usar a saída dos modelos para desenvolver modelos concorrentes, com exceções previstas para quem paga pela API.
Kjellberg disse no vídeo que nunca aplicaria o método que conheceu para recuperar o raciocínio interno dos modelos, porque isso violaria os termos. No mesmo dia da publicação, a OpenAI disse ter desbaratado uma campanha organizada de extração de raciocínio e fechou uma brecha que permitia a uma pessoa reproduzir o raciocínio cifrado de outro usuário. A empresa não cita o nome dele em nenhum dos dois anúncios.
Como o modelo perdeu as recusas
Para tirar do Ajax as respostas que assistentes como o ChatGPT se recusam a dar, Kjellberg usou o Heretic, um programa aberto com 33 mil estrelas no GitHub que testa o modelo com pedidos prejudiciosos e inofensivos, identifica o padrão que sustenta as recusas e elimina esse padrão. O processo se chama abliteração, e o próprio criador admite que a cirurgia não sai limpa, chamando o resultado de pouco dano cerebral.
O limite que ele diz ter desenhado é estreito. Ficam de pé as recusas a pedidos que causem dano a outras pessoas ou a si mesmo, e no começo do vídeo ele avisa que o advogado recomendou declarar que o Ajax não entrega receita perigosa com passo a passo. Nenhuma avaliação pública mostra o quanto esse limite funciona, porque ainda não há como testar o modelo.
O treino também não parou. Ele está usando GRPO, um método de aprendizado por reforço em que cada tarefa é repetida dezesseis vezes e apenas as tentativas que dão certo entram no aprendizado. A versão um já era tratada como rascunho na fala dele, trabalho em andamento.
O que ainda falta para o Ajax sair
O que existe até agora passa do nome. O Ajax já organiza caixas de entrada, navega na web, cuida de calendário e lista de tarefas dentro do Odysseus, e o criador afirma que acerta em nove de cada dez tarefas. O número é dele, dos testes próprios, sem lista de tarefas, sem tamanho de amostra e sem comparação com nada publicado.
E a lista do que falta é maior. Não há pesos para baixar, nem modelo de placa, nem licença definida para os pesos refinados, nem requisito de hardware, nem runtime suportado, nem benchmark. O repositório do Odysseus é AGPL-3.0, e isso cobre o software do espaço de trabalho, não necessariamente o arquivo do modelo, que tem termos próprios por ser um refinamento.
A conta de energia por trás da aposta
O argumento que sustenta a escolha do modelo pequeno é de conta de luz. Pela estimativa dele, uma cópia de um modelo de ponta com trilhões de parâmetros precisaria de 27 das máquinas dele e do consumo de luz equivalente ao de 150 casas. É cálculo próprio, feito de cabeça, e ele mesmo admite que é aproximação.
É por isso que um modelo desse tamanho, ajustado para um único ambiente de trabalho, cabe na máquina de casa, roda sem assinatura e não manda e-mail nem agenda para servidores de empresa nenhuma. O que falta é a verificação de que o arquivo entregue vai fazer o que o vídeo promete. A página de download pede doação de dados de treino e ninguém enviou nada até agora.
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