IA e Tecnologia

Os programas de IA já têm onde pagar, e o valor movimentado ainda é pequeno

As maiores empresas de nuvem do mundo passaram a tratar os agentes de inteligência artificial como clientes. Os programas que varrem sites e bases de dados, antes barrados, agora encontram um preço. O pagamento sai em stablecoin e é liquidado em rede pública. Na leitura do investidor Raoul Pal, essa atividade tende a correr em redes de contratos programáveis, como Ethereum e Solana, e a passar longe do bitcoin.

O trilho que faz essa conta fechar é o x402, protocolo criado pela Coinbase e hoje abrigado em uma fundação independente ligada à Linux Foundation, com a Amazon entre os fundadores. Cada acesso é cobrado isoladamente, sem contrato nem assinatura mensal.

A corrida pelas chamadas dos agentes

A Amazon ligou esse sistema em junho, na camada que fica na frente dos sites e filtra quem entra. Na estimativa da Coinbase, essa camada responde por cerca de um quarto do tráfego da web. Quem publica conteúdo e vende dados ganhou uma linha de receita paga em carteira de stablecoin.

Em agosto, a Amazon deu o passo seguinte e levou a cobrança para o ambiente em que as empresas constroem os próprios agentes. Ali, o programa compra sozinho o que precisa no meio de uma tarefa, como uma API, um servidor de dados ou um texto protegido por assinatura, sempre dentro de um teto de gasto definido para a sessão.

Nesta semana, a Alibaba Cloud e a rede Sui anunciaram uma parceria para levar o pagamento por uso à nuvem chinesa. Quem opera o agente define um teto em stablecoin, e o programa quita cada serviço que consome, sem fatura mensal. O projeto está em construção, sem data para estrear. A Sui anunciou no mesmo evento uma frente parecida com o Google Cloud, para registrar o que cada agente fez dentro do limite autorizado.

A disputa não se limita às nuvens. A Stripe monta um protocolo próprio de pagamento entre máquinas, ao lado da rede Tempo. A Circle, que emite o USDC, lançou em setembro uma rede com carteiras para agentes, limites de gasto e pagamentos de fração de centavo. A Cloudflare seguiu caminho parecido para os sites que usam a rede dela, com preço por requisição definido pelo dono do conteúdo.

O que os números mostram

O dinheiro que circula nesse trilho ainda é pouco. Na medição da TRM Labs, só entre 0,6% e 7,5% do valor que passa pelo x402 veio de agentes de verdade, depois de a empresa descartar o que não parecia comércio. Quase todo o restante, 99,6%, foi liquidado em USDC.

A dificuldade de separar uma coisa da outra não é falta de dado. Um script agendado e um agente deixam registros idênticos na rede, e o que está gravado não diz quem mandou a ordem.

O tráfego também oscila. Em dezembro do ano passado, o x402 registrava 731 mil transações por dia. Em fevereiro deste ano, a média caiu para 57 mil, uma queda de 92% em dois meses. A Artemis estimou que quase metade do movimento vinha de operações em que o mesmo controlador ficava nos dois lados da transação.

Onde o pagamento está passando

Hoje, o x402 roda sobretudo na Base, a rede da Coinbase construída sobre o Ethereum, e na Solana. A Solana passou a liderar o protocolo em número de pagamentos diários e, por volta de agosto deste ano, respondia pela maior fatia do volume mensal.

A conta do agente é feita de pedaços pequenos e repetidos, e a rede que cobrar menos por cada um fica com o volume. É nessa disputa que Pal aposta em Ethereum e Solana. O bitcoin, na leitura dele, fica fora dessa engrenagem.

A BlackRock vê nos agentes a próxima fonte de demanda das stablecoins, um mercado que já passou dos US$ 300 bilhões no dado de setembro.

O que passou pelo x402 desde o início somava US$ 52,68 milhões, na medição da TRM Labs.

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