Ouro sobe com a trégua que ninguém confirmou e o bitcoin cai
O ouro e o bitcoin começaram a semana em direções opostas. O metal abriu esta segunda-feira perto de US$ 4.200 a onça, no maior nível em dez dias, enquanto o bitcoin caiu para a casa dos US$ 81 mil e acumula perda de 2,8% em 24 horas, segundo a CoinGecko. O petróleo foi na mesma direção do ouro, e o barril do Brent subiu 1,8% e voltou a passar de US$ 106.
Os motivos que sustentaram o metal nesta segunda-feira vieram de fora do mercado de metais, em duas frentes de guerra que seguem abertas.
A trégua que Moscou não confirmou
No domingo, Donald Trump anunciou em rede social uma trégua energética entre Rússia e Ucrânia, com efeito imediato e sem dar detalhes. O Kremlin não confirmou o acordo, e a Ucrânia disse ter sabido pela imprensa. Poucas horas depois do anúncio, bombardeios russos acertaram uma usina elétrica de Kiev e alvos de energia em Kharkiv. Volodymyr Zelensky afirmou que a Ucrânia aceita não atacar alvos energéticos russos desde que Moscou faça o mesmo.
O anúncio veio dois dias depois de outro acordo, o da venda de diesel russo aos Estados Unidos, criticado por governos europeus e por senadores americanos.
Na sexta-feira, Trump disse que a Rússia fornecerá mais de 300 mil toneladas de diesel ao mercado americano e ao resto do mundo, com embarques maiores em novembro e dezembro, em troca de alívio nas sanções. Sete senadores americanos assinaram uma nota afirmando que a medida contraria uma norma americana que barrava a compra de derivados russos. O pano de fundo é a eleição de novembro, quando os americanos renovam o Congresso, e o preço dos combustíveis nas bombas.
O diesel nos Estados Unidos está em US$ 6,28 o galão, quase 70% acima do nível de fevereiro, e a gasolina comum subiu 45% no mesmo período.
A outra frente aberta está no Oriente Médio. No fim de semana, os houthis do Iêmen lançaram um míssil contra o aeroporto de Riad, e a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz segue abaixo de 23 por dia, contra centenas antes da guerra. Com o petróleo caro, a inflação americana demora a ceder, e é essa demora que mantém o ouro sustentado.
O dado de quarta-feira e o ouro
O dado que pode mudar esse quadro chega na quarta-feira. O horário do dado e as apostas de juros para a reunião do Fed estão na matéria publicada mais cedo, e a parte da energia é a que interessa ao ouro. Um número mais quente sustenta o juro real alto por mais tempo e tira atratividade de um ativo que não paga rendimento. Um número mais fraco faz o caminho contrário e abre espaço para o ouro recuperar parte do que perdeu ao longo do ano.
O bitcoin chega a esse teste em posição pior, com o fluxo dos fundos listados em bolsa no vermelho desde o começo do mês e a moeda 10% abaixo do preço de um ano atrás.
O que separa o ouro do bitcoin
A diferença entre os dois ativos está em quem compra. Os fundos de ouro chegaram a 4.189 toneladas no fim de agosto, um recorde, depois de US$ 18 bilhões em entradas em um único mês, e os bancos centrais seguem comprando, com a China somando 20,2 toneladas em agosto. O bitcoin depende de outro fluxo, o dos fundos listados em bolsa dos Estados Unidos, que tiveram em agosto o melhor mês do ano e agora devolvem parte disso em outubro, pelos dados da SoSoValue.
O bitcoin ganhou fama de ouro digital, mas nesta semana os dois ativos estão em lados opostos do mercado, e quem compra um não está comprando o outro.
O ouro também está longe do topo. A onça chegou a US$ 5.586 em janeiro e caiu ao longo do ano. O menor preço de 2026 foi registrado em junho, perto de US$ 3.955, e a recuperação desde então tem sido lenta. Quem comprou ouro no começo do ano ainda está no vermelho.
Para o bitcoin, o teste é mais imediato. Se a inflação vier acima do esperado, a aposta em nova alta de juros volta com força e tende a pressionar o preço, que opera entre US$ 81 mil e US$ 84 mil. Um resultado mais fraco tende a destravar o alívio que o mercado espera desde setembro. O ouro, por enquanto, não depende do dado e segue ancorado nas duas guerras que continuam abertas.
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