Qubic religa a rede e abre prazo até maio de 2027 para devolver 2,94 trilhões de QU
Quase dois dias após parar a própria rede para conter um roubo, a Qubic voltou a processar transações na noite de segunda-feira. A retomada veio com uma plataforma para os donos das 1.404 carteiras esvaziadas reaverem os fundos, com prazo até 1º de maio de 2027, e com uma exigência que nenhum comunicado resolve sozinho, a prova de que a carteira era mesmo deles.
O desvio somou 2,94 trilhões de QU, perto de US$ 1,4 milhão no momento do ataque, e os validadores que mantêm a rede, chamados de computors, aprovaram o plano de devolução. Pela cotação desta terça-feira, os mesmos 2,94 trilhões valem cerca de US$ 1,35 milhão, e o token operava com variação de 0,06% nas últimas 24 horas.
O desvio durou menos de duas horas na noite de sábado
O ataque começou às 20h42 do sábado, 17, e terminou às 22h26, no horário de Brasília. Em pouco mais de uma hora e quarenta minutos, o invasor esvaziou 1.404 carteiras cujas sementes tinham sido geradas em ambientes específicos. A lista inclui qualquer navegador no iPhone e no iPad, o Safari no Mac e o aplicativo da Qubic para iOS anterior a julho de 2025.
A maior parte do dinheiro nunca saiu da rede. Ficaram 87,1% do total em endereços da própria Qubic, e os 12,9% restantes seguiram para a MEXC, que bloqueou a conta de destino cerca de uma hora depois do depósito. Pelo preço desta terça, essa fatia parada na corretora equivale a quase US$ 175 mil.
A falha morava no sorteio da semente
Cada carteira da Qubic nasce de uma semente de 55 letras, e o wallet web montava essa sequência com o Math.random(), sorteio do JavaScript que não serve para gerar segredos. O mesmo sorteio alimentava um campo do cabeçalho de cada requisição enviada à rede, o que entregava a quem observasse o tráfego uma amostra do gerador. A análise da SlowMist, empresa de segurança que reconstruiu o caminho, mostrou que seis valores seguidos desse campo bastavam para recuperar o estado interno do gerador e refazer a semente. Foram cerca de 15 milissegundos na prova de conceito.
A correção saiu na versão 4.26.4 do wallet web, que passou a usar a função de aleatoriedade criptográfica do navegador. Segundo a SlowMist, a versão nova separa as sementes criadas dali em diante do sorteio exposto no cabeçalho, mas mantém o campo de cabeçalho gerado como antes. Quem criou carteira antes da atualização precisa tratar a semente antiga como comprometida, mesmo que nenhum fundo tenha saído.
A rede parou no tick 85.371.949 e voltou com uma conta de escrow
Os computors interromperam a rede no domingo, no tick 85.371.949, para impedir que o restante dos fundos saísse. Com a retomada, os valores congelados foram reunidos em uma conta de escrow. O nó público da rede mostrava 2,86 trilhões de QU recebidos em 1.637 transferências, nenhuma delas de saída.
O saldo do escrow supera a fatia do roubo que ficou on-chain, o que indica que carteiras fracas que nunca foram esvaziadas também tiveram o saldo movido para lá. No fim da noite desta terça, a rede processava o tick 85.579.105, mais de 200 mil à frente do ponto em que parou.
A assinatura não devolve a carteira ao dono
A plataforma de reivindicação pede o endereço afetado, um endereço novo criado em carteira atualizada e uma mensagem assinada pela carteira antiga. A assinatura sozinha não decide nada. Como as sementes eram previsíveis, o invasor consegue assinar como o dono legítimo.
O que define a propriedade é a evidência que o atacante não teria, analisada pelos desenvolvedores do núcleo do projeto. O item mais forte é o comprovante de um saque feito em corretora que mostre o envio para o endereço afetado, porque o cadastro do cliente liga aquele endereço a uma pessoa. Também valem confirmação de negociação fora de corretora, histórico de financiamento anterior da carteira e assinatura de outro endereço não afetado que tenha mandado fundos para ali. Uma verificação de identidade com documento e selfie, feita pela Didit, é opcional e acelera a análise.
Os pedidos entram em duas filas. A rápida atende casos sem contestação e com prova forte. A estendida fica com os contestados, os de prova fraca e os valores maiores, que passam por revisão dos desenvolvedores. Depois do aval, a lista de aprovados fica pública por sete dias, com endereço e valor, antes de qualquer pagamento. Contestações cruzadas sem solução ficam congeladas.
Três caminhos de devolução, com prazos diferentes
Cada origem tem um caminho próprio. O que foi drenado e continua na Qubic volta da conta de escrow. O que foi para a MEXC depende da corretora e de cooperação com autoridades, um caminho mais lento. As carteiras que ficaram na lista de retenção sem terem sido esvaziadas são liberadas quando a reivindicação é verificada.
Há ainda o que não é token. Posições travadas em QEARN e participações em contratos inteligentes específicos seguem onde estão e voltam ao endereço novo em lotes posteriores. As ordens abertas na QX foram canceladas durante a recuperação, para preservar os ativos presos nelas. O dono faz um pedido só, mesmo com ativos de tipos diferentes.
Quem criou carteira em iPhone, iPad ou Safari do Mac deve trocar a semente agora
A orientação da equipe é direta. Semente gerada no wallet web antes da 4.26.4 é insegura, inclusive para quem nunca perdeu um QU. O caminho é atualizar para a 4.26.4 ou mais recente, criar uma carteira nova, em aparelho e navegador não afetados, mover os fundos e abandonar a antiga.
A plataforma apenas registra e verifica pedidos. Quem decide e aplica cada devolução é o quórum de computors. Nenhum QU havia saído da conta de escrow até a noite desta terça-feira.
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