O DeepSeek foi retirado das agências civis dos EUA quatro dias depois de a China propor controle de exportação para a IA
A pasta de segurança interna dos Estados Unidos publicou na terça-feira o aviso que manda as agências civis do governo federal retirarem de seus sistemas qualquer produto do DeepSeek, a empresa chinesa de inteligência artificial. A ordem alcança também softwares e serviços de outras empresas que tenham sido construídos sobre modelos do DeepSeek, o que estende o efeito a fornecedores americanos que embutem a tecnologia chinesa nos produtos que vendem.
O documento foi assinado em 24 de julho pelo secretário do departamento, Markwayne Mullin, e só chegou ao Federal Register, o diário oficial americano, 88 dias depois. O intervalo importa por causa de um detalhe do próprio texto. As agências têm 60 dias, contados da assinatura, para pedir exceção. Esse prazo terminou em 22 de setembro, quatro semanas antes de o aviso ficar público.
No mesmo dia, o DeepSeek liberou o DeepInfer, o programa que mantém os modelos da empresa no ar em escala.
O alcance chega ao produto de terceiros
A ordem tem duas exigências. A primeira veda a compra de qualquer item ou serviço do DeepSeek e de empresas a ele ligadas, com efeito imediato, e alcança os catálogos que as agências mantêm de itens aprovados e de equipamentos de fornecedores, além das lojas de compras do governo. A segunda manda retirar o que já está instalado, incluindo o que foi construído por terceiros a partir da tecnologia do DeepSeek.
Quem não conseguir cumprir de imediato pode pedir exceção à agência de cibersegurança do departamento, a CISA, com justificativa e uma descrição das mitigações que pretende adotar. A CISA responde por escrito, aprovando ou negando.
O governo americano já havia fechado outras portas. A lei de autorização de defesa aprovada em 18 de dezembro de 2025 barrou o uso de sistemas de inteligência artificial do DeepSeek e da High Flyer, o fundo ligado à empresa, no Departamento de Defesa e entre seus contratados, e mandou o diretor de inteligência nacional criar regras para removê-los dos sistemas da comunidade de inteligência. Faltava o funcionalismo civil federal, e a ordem desta semana fecha essa lacuna.
O departamento justifica a medida com risco à segurança do país. Diz que os servidores do DeepSeek ficam na China, que a lei chinesa dá ao governo acesso amplo aos sistemas de companhias privadas e que o processo de pergunta e resposta dos aplicativos pode levar para fora do país informação sensível digitada por funcionários públicos americanos. O texto também afirma que os modelos podem trazer falhas de segurança embutidas, e cita uma pesquisa que encontrou vulnerabilidades críticas no aplicativo da empresa para iPhone.
Até a retirada completa, o departamento recomenda que as agências monitorem o que entra e o que sai dos sistemas, reforcem o registro de atividade e sinalizem movimentação fora do padrão. A ordem será revisada pelo secretário em até um ano, e depois anualmente.
O que a empresa abriu e o que ficou fechado
O DeepInfer é a camada de software entre o modelo e os chips. É ele que decide como os pedidos se distribuem entre as máquinas, como o que já foi processado é reaproveitado e quantas respostas saem por segundo. O repositório no GitHub foi criado em 16 de outubro e já passava de 13 mil estrelas na noite de terça-feira.
O código saiu sob licença Apache 2.0, que permite uso comercial e redistribuição, e roda apenas o DeepSeek-V4.1-Flash, lançado em setembro com 552 bilhões de parâmetros. O mesmo código funciona nos processadores SM100 da Nvidia e nos Ascend 950 da Huawei.
Junto com o framework, o DeepSeek publicou o deepseek-recipe, biblioteca em Rust que converte pedidos nos formatos de API mais usados e imita a resposta que o serviço oficial entrega. Quem hospeda o modelo por conta própria passa a responder no mesmo formato do serviço original.
O documento que acompanha o lançamento traz dois números de operação da própria empresa. Um único cluster da DeepSeek responde por 155 trilhões de tokens a cada dia. Cada hora de GPU rende US$ 38, na tarifa de baixa demanda.
A abertura tem borda. O sistema de cache, que guarda por mais de 72 horas o que já foi processado de uma conversa, e a distribuição de carga entre as cópias do serviço ficaram de fora. A empresa diz que os dois estão acoplados à infraestrutura interna dela. Também não vem no pacote o que separa as etapas de pré-processamento e geração entre máquinas diferentes.
Na prática, montar um serviço completo continua sendo trabalho de centro de dados. O próprio repositório informa que a menor unidade eficiente de operação são 64 GPUs para a primeira etapa e 64 para a segunda, 128 aceleradores como piso.
Tianyi Cui, engenheiro da DeepSeek, escreveu que a empresa está liberando o framework e os demais componentes necessários para servir os modelos, com o objetivo de que mais companhias e organizações pelo mundo possam rodá-los e lucrar com isso. Em abril do ano passado, a mesma empresa havia dito que abrir o sistema inteiro não era prático naquele momento, pelo grau de dependência da infraestrutura própria.
Pequim listou a tecnologia quatro dias antes
Em 16 de outubro, os ministérios do Comércio e da Ciência da China publicaram a proposta que inclui inteligência artificial no catálogo de tecnologia com exportação restrita. São 23 itens de IA entre os 40 da lista, ao lado de 5 de biomedicina e 12 de energia solar. A proposta cobre modelos de grande porte, agentes, clusters de computação e processamento de informação.
O texto isenta o que já entrou em domínio público por código aberto ou por artigo acadêmico. Também criou, com efeito imediato, um registro obrigatório antes de qualquer exportação das tecnologias listadas, incluindo negócios já em curso e ainda não concluídos. A consulta pública vai até 15 de novembro.
A reação do governo chinês veio na terça-feira. Mao Ning, que responde pelo Ministério das Relações Exteriores da China, disse em Pequim que o país se opõe a alargar o que entende por segurança nacional e a politizar questões de tecnologia e comércio, e que vai defender os direitos das empresas chinesas. O Ministério do Comércio foi mais longe e chamou a ordem de medida discriminatória, dizendo que vai acompanhar o caso e adotar todas as medidas necessárias.
O DeepInfer saiu quatro dias depois de a consulta pública chinesa abrir. A isenção para o que já é público está no parágrafo inicial da proposta.
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