Segurança

Falha na Symbiosis cria bilhões em Bitcoin sintético sem lastro

Um protocolo emitiu bilhões em token falso. O dinheiro que saiu de verdade foi uma fração mínima disso.

O caso envolve a Symbiosis, protocolo que conecta Bitcoin a outras redes por meio de um token sintético chamado syBTC. No dia 11 de setembro, às 4h28 UTC, o equivalente a 1h28 no horário de Brasília, uma transação assinada no contrato BridgeV2 gerou cerca de 2 elevado a 62 unidades brutas desse token, sem nenhum Bitcoin real depositado como lastro.

Convertida para a casa decimal padrão, essa quantidade equivale a um valor de face de aproximadamente 46,1 bilhões de dólares, segundo o alerta da firma de monitoramento Blockaid, que identificou a movimentação em tempo real. Uma segunda contagem, feita em unidades brutas somando Ethereum e BNB Chain, chegou a cerca de 368,9 bilhões de syBTC, número que reflete a forma de contar tokens e não um valor de face maior em dólares.

Do total emitido, o invasor conseguiu converter apenas uma parte ínfima em ativo real. Foram 4,39 WBTC vendidos na Uniswap V4, na rede Ethereum, o equivalente a cerca de 336 mil dólares. O restante do saldo ficou parado na BNB Chain.

O teto imposto pela liquidez

A razão é de mercado, não de intenção. Nenhum comprador absorve, de uma só vez, um volume tão desproporcional de um ativo sem lastro, então a liquidez disponível nos pools de negociação virou o limite prático do roubo.

A Symbiosis parou as rotas de Bitcoin do protocolo assim que confirmou o incidente. As demais conexões, ligadas a outras redes, seguiram operando.

Parte dos fundos já voltou. O protocolo diz ter recuperado cerca de 15 BTC, hoje guardados em uma carteira que exige múltiplas assinaturas para movimentação. Esse valor recuperado supera o que o invasor conseguiu converter em dinheiro real, mas o saldo sintético sem lastro continua circulando na rede enquanto o caso não se resolve.

A empresa também ofereceu 20% dos fundos como recompensa, caso o próprio autor do ataque devolva o restante até 13 de setembro. Depois desse prazo, a mesma fatia passa a valer como recompensa para qualquer pessoa que apresente informação capaz de levar à recuperação dos valores.

O mecanismo por trás da emissão

Análises publicadas por firmas de segurança depois do incidente apontam que o BridgeV2 aceitou uma mensagem malformada como se fosse válida. O contrato depende de uma rede externa de retransmissores, que assina operações usando chaves de computação multipartidária antes de liberar a emissão de syBTC.

No caso específico da Symbiosis, o Bitcoin original não chegou a ser tocado. A rede seguiu funcionando normalmente durante todo o episódio.

Duas outras pontes no mesmo intervalo

Cinco dias antes, a sidechain Liquid, mantida pela Blockstream, perdeu cerca de 4.000 BTC reais de sua carteira federada, avaliados em torno de 319 milhões de dólares. Diferente da Symbiosis, ali o Bitcoin que saiu era autêntico, não um token sintético recém criado.

Um grupo se apresentou publicamente, em mensagem registrada na própria rede, como responsável pelo desvio e se identificou como whitehat. Devolveu 3.400 BTC, manteve cerca de 598,5 BTC e fez uma exigência própria, o que gerou debate sobre até onde vai a linha entre invasão criminosa e divulgação responsável de falhas.

Já o protocolo Nomic enfrentou um problema de outra natureza. Uma falha de código permitiu cunhar 39,84 nBTC sem lastro correspondente, abrindo um buraco de 36% na garantia da cesta Alloyed BTC, mantida na rede Osmosis. O erro nasceu em 25 de junho e passou 74 dias sem ser notado, até um pesquisador independente localizar a brecha diretamente no código.

Colocados lado a lado, os três episódios não compartilham o mesmo mecanismo. Um drenou Bitcoin verdadeiro de uma carteira compartilhada. Outro criou do zero um ativo que nunca existiu. O terceiro deixou uma conta interna sair do lugar sem que ninguém reparasse por mais de dois meses.

O ponto em comum está em outro lugar. Nos três casos, a falha não esteve no protocolo Bitcoin em si, mas na camada extra de software criada para representar o Bitcoin em outras redes.

A Symbiosis ainda não divulgou um relatório interno explicando o ponto exato da falha no BridgeV2, nem fechou um número final de prejuízo, nem confirmou publicamente se o autor do ataque aceitou a proposta de recompensa.

Para quem mantém posições em versões sintéticas de Bitcoin fora da rede original, o episódio serve de lembrete direto. A segurança desses ativos depende da engenharia por trás de cada ponte específica, e não da rede Bitcoin, que nos três casos recentes permaneceu intacta.

⚠️ Aviso importante

As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.

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