Segurança

US$ 681 milhões em ataques a DeFi ignoraram escopo das auditorias

Um levantamento de incidentes de segurança em finanças descentralizadas no primeiro semestre de 2026 revelou que a maioria das vítimas havia passado por auditorias profissionais de smart contracts antes dos ataques.

Levantamento de incidentes em DeFi

O dataset compilado pela ack3 em colaboração com a Czech Technical University documentou 135 incidentes verificados entre janeiro e junho de 2026. As perdas atribuídas totalizaram US$ 939,86 milhões, abrangendo protocolos em múltiplas blockchains e categorias de ataque, desde exploração de código até comprometimento de infraestrutura. O dado central do estudo aparece na divisão dos 135 incidentes. Desses, 68 possuíam histórico de auditoria pública identificável e 46 sofreram ataques em pontos que nenhuma análise prévia havia coberto. Apenas 20 incidentes ocorreram em pelo menos uma cobertura prévia.

Em termos financeiros, os ataques fora de escopo representaram US$ 680,97 milhões, o equivalente a 94,4% das perdas dos protocolos que haviam sido auditados. Os incidentes dentro de escopo somaram US$ 35,21 milhões, correspondendo a 4,9% do total.

O que uma auditoria cobre

Uma auditoria de smart contracts avalia artefatos específicos em determinado momento, cobrindo funções e módulos explicitamente definidos no escopo do trabalho contratado. O rótulo de protocolo auditado frequentemente transmite a impressão de garantia abrangente, o que não corresponde à realidade técnica das avaliações pois a cobertura é sempre parcial e temporal.

Casos de ataques fora de escopo

O post-mortem publicado pela ICON Foundation em 30 de agosto de 2026 exemplifica o padrão. O contrato de migração da rede ICON sofreu um exploit de replay em 27 de agosto, quando o atacante reenviou duas mensagens de saque legítimas por 1.492 vezes consecutivas em um intervalo de 20 minutos.

O defeito estava na checagem de unicidade. Os bits altos do número de série eram validados, mas a proteção criptográfica atingia apenas os 256 bits de menor peso. A equipe reconheceu que a checagem exclusiva de mensagem não estava no escopo do trabalho anterior. As perdas ficaram em aproximadamente 150,2 ETH e 31.204 USDC, e a rede ficou suspensa por cerca de 25 horas.

O mecanismo multisig do Drift havia sido ajustado para o modo dois de cinco signatários, combinando um signatário antigo com quatro novos membros. Nenhum mecanismo de timelock foi configurado para as operações administrativas. O atacante se aproveitou do signatário original e de outro recém-adicionado para transferir as permissões de administrador para um endereço sob seu controle. A SlowMist confirmou que a causa raiz foi a configuração da governança multisig somada à ausência de timelock, não uma vulnerabilidade no código dos smart contracts. As perdas chegaram a US$ 285 milhões.

O maior prejuízo individual de DeFi em 2026 expõe a diferença entre auditoria de código e segurança de governança.

O exploit da Kelp DAO, em abril, drenou 116.500 rsETH em uma única transação por meio de uma falha na camada de infraestrutura off-chain do protocolo. O atacante substituiu os binários em dois nós RPC internos do tipo op-geth e realizou ataques de negação de serviço contra nós externos para forçar o failover, enganando o único DVN configurado. Entre 17h35 e 18h21 UTC, o atacante depositou os rsETH em versões do Aave e tomou emprestado aproximadamente US$ 190 milhões em WETH. O Conselho de Segurança do Arbitrum congelou cerca de 30.765 ETH. A Kelp possuía auditorias de smart contracts, mas o ataque ocorreu inteiramente por meio da infraestrutura fora da chain, escapando de qualquer verificação de código.

Outros casos reforçam a mesma tendência. A ponte Taiko sofreu um prejuízo de US$ 1,7 milhão quando uma chave de assinatura pública foi encontrada no repositório Raiko, fora do escopo da auditoria da OpenZeppelin. O Polymarket registrou US$ 3,1 milhões em perdas via comprometimento do front-end, superfície não coberta pelos contratos auditados. O protocolo Resolv perdeu US$ 24,5 milhões após o comprometimento de credenciais de infraestrutura que permitiu o mint on-chain de tokens lastreados.

O alerta do estudo

O preprint da ack3 e da Czech Technical University alerta que o selo de auditado diz até onde a análise chegou e em que data, mas não cobre o que ficou de fora nem o que mudou depois. Excluindo os dois maiores incidentes, Kelp DAO e Drift, a participação dos ataques fora de escopo nas perdas totais cai para 72,1%, patamar ainda elevado. Os 94,4% revelam uma falha de comunicação do ecossistema. O mercado vende auditoria como selo de blindagem total, mas o que ela entrega é a fotografia de um pedaço do sistema em um instante. O descompasso de 18 meses entre a avaliação e o ataque se repete porque a superfície real dos protocolos cresce enquanto a cobertura permanece congelada no momento da análise.

⚠️ Aviso importante

As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.

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