Duas carteiras que compraram bitcoin a US$ 178 em 2013 mexeram US$ 43 depois de treze anos
Duas carteiras que ficaram treze anos sem uma única operação voltaram a se mexer neste domingo, 4 de outubro. Os endereços guardam 1.346 bitcoins, comprados a um preço médio de US$ 178 em 2013, quando o lote inteiro custava US$ 240 mil. Hoje a posição vale US$ 115 milhões, o que dá um retorno próximo de 479 vezes sobre o valor investido. O que saiu da carteira foi 0,0005 bitcoin, cerca de US$ 43.
O dinheiro original veio da Multibit e da BTC-e, duas corretoras que operavam naquela época e já fecharam. O detalhe situa bem o momento. Em 2013 o bitcoin era uma moeda de nicho, com uma corretora europeia quebrando na porta. Quem comprou a US$ 178 não sabia o que vinha depois, e a carteira mostra que esses dois endereços não precisaram saber.
O que US$ 178 significava em 2013
O preço daquele ano ajuda a medir a coragem da compra. A moeda começou o ano perto de US$ 13, subiu até US$ 266 em abril, caiu para US$ 95 no dia seguinte e passou pela casa dos US$ 70 no verão. Só em novembro veio a explosão que levou o bitcoin a mais de US$ 1.100 em 29 de novembro.
Comprar a US$ 178 significava comprar depois de uma queda próxima de 90% contra o topo de abril. Quem fez isso pagou um preço que parecia caro para a maioria e barato para quem tinha lido o que vinha pela frente. As moedas atravessaram 2014 e 2015 sem se mexer, atravessaram 2017, 2022 e a quebra da FTX. Treze anos sem uma venda registrada.
O que eles perderam ficando
O número de 479 vezes é real, e ao mesmo tempo esconde o tamanho do que ficou na mesa. No dia 6 de outubro do ano passado o bitcoin valia US$ 126.080. Nesse dia os 1.346 bitcoins das duas carteiras valiam US$ 169,7 milhões. Hoje valem US$ 115 milhões. A diferença, US$ 54,7 milhões, é o que a paciência custou.
Isso não é defeito de estratégia. Quem vira em US$ 115 milhões em 2017 não compra de novo, e quem segura 479 vezes atravessando quatro ciclos não está buscando o maior retorno, está guardando. A conta fecha dos dois lados. O investidor de hoje que compra a US$ 86 mil precisa acertar a hora da saída, porque não tem US$ 178 de base. Quem comprou a US$ 178 pode escolher o ano que quiser.
US$ 43 é teste, não venda
Uma transferência de 0,0005 bitcoin não movimenta nada. Custa quase nada na rede e deixa um registro permanente, o que serve ao propósito de quem a faz, confirmar que a carteira ainda responde e que as chaves continuam no lugar. É o equivalente on-chain de levantar, olhar o relógio e voltar para a cama.
Uma venda de US$ 115 milhões teria forma diferente. Envolveria corretora, custódia, ou venda direta em blocos, e deixaria rastro de contraparte. Nada disso apareceu. A leitura mais simples é que os endereços continuam guardando, e que o movimento serve de lembrete público de que estão lá.
A parede de US$ 88 mil a US$ 91 mil
A euforia em torno do despertar das carteiras antigas esbarra em algo mais concreto. Segundo a CoinGlass, grandes ordens de venda se formaram entre US$ 87 mil e US$ 91 mil, como barreiras em quatro patamares, US$ 88 mil, US$ 89 mil, US$ 90 mil e US$ 91 mil. É onde o preço trava.
Abaixo dessa faixa, o mesmo mapa mostra uma bolsa de liquidez maior entre US$ 81 mil e US$ 84.150. Nos gráficos de quinze minutos, os compradores estavam absorvendo as quedas, com mais de 2 mil bitcoins acumulados em fluxo comprador no Coinalyze. A liquidez está dos dois lados. Sem romper os US$ 91 mil, o caminho mais provável é o teste da bolsa de baixo.
US$ 100 mil tem 39% de chance
A Kalshi, casa de apostas que transforma previsão em mercado, dava 39% de chance de o bitcoin cruzar US$ 100 mil até o fim do ano, uma aposta que vinha subindo devagar com o trimestre fechando. No gráfico semanal, US$ 100 mil e US$ 127 mil apareciam como próximas resistências, depois de a moeda fechar a semana pela segunda vez acima do que havia alcançado em maio.
O número merece contexto. O bitcoin está US$ 39.940 abaixo da máxima histórica, uma queda de 31,68%, e perdeu 30,16% nos últimos doze meses. Há doze meses a moeda valia US$ 123.488, e no dia 7 de outubro do ano passado ela tocou US$ 124.739. O último trimestre costuma ser forte, com retorno positivo em cerca de sete anos a cada dez no período que vai do fim de agosto ao Natal, segundo o pesquisador Timothy Peterson. Isso sustenta o otimismo de quem aposta nessa sazonalidade e não transforma probabilidade em certeza.
No curto prazo, o bitcoin está em US$ 86.140, com alta de 3,71% em sete dias e 8,19% em trinta, depois de tocar US$ 61.648 em 8 de julho. A alta de 36% em noventa dias já aconteceu. O que vem depois dela é território novo.
O que a carteira diz e o que não diz
Um endereço que dorme treze anos e acorda não é sinal de compra nem de venda. É uma ausência que virou evento, porque o mercado passou a tratar qualquer endereço antigo em movimento como informação. A CoinMetrics e a Santiment medem o fluxo líquido de bitcoin para fora das corretoras há anos para distinguir dinheiro que entra de dinheiro que sai, e o despertar de carteira é o tipo de evento que mais gera falso positivo.
O que os números dizem com clareza é o custo de oportunidade de guardar. US$ 115 milhões é uma posição que não precisa de mercado para existir, e que rendeu 479 vezes porque o preço do bitcoin multiplicou por 479 desde 2013. Quem não vendeu não acertou o momento, porque nunca tentou acertar. Mover US$ 43 no domingo é a prova disso.
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