Blockchain

A THORWallet passou a guardar Monero dentro do app, e o passo que falta é o que interessa

A THORWallet, carteira de autocustódia que roda em celular, passou a dar suporte nativo ao Monero. Desde 5 de outubro, quem usa o aplicativo da empresa suíça consegue criar contas de Monero, receber e enviar XMR e escolher com qual nó da rede conversar. As chaves, os saldos e o histórico de transações ficam calculados e guardados no próprio aparelho, e não saem dele. É a primeira vez que uma moeda de privacidade aparece dentro de um aplicativo de carteira com esse desenho.

O anúncio é parte de uma entrega maior. A THORChain, a corretora descentralizada que dá o motor de troca por trás do aplicativo, lançou a versão 3.20 em 25 de agosto, com suporte nativo a Monero e Zcash. A carteira é a camada que embrulha isso para quem não quer operar direto no protocolo. A empresa promete a próxima etapa, a troca direta entre Monero e bitcoin, ether e stablecoins dentro do app, sem corretora no meio. Esse passo ainda está em teste e auditoria.

O que muda dentro do aplicativo

A parte visível é a mais simples. Uma carteira de Monero pode funcionar em espaço próprio ou em várias contas derivadas da mesma semente, o que dá mais flexibilidade para separar gastos, guardar e pagamento. Dá também para apontar o aplicativo para um nó específico de Monero, e quem não fizer essa configuração usa o nó padrão da THORWallet.

O aplicativo não recebe depósito e não opera a custódia. Ele reconstrói o saldo consultando a rede e guarda o resultado no aparelho. Uma corretora central tem o dinheiro e promete devolver. Aqui a chave está no telefone, e quem perde o telefone perde o acesso, sem ninguém para pedir resgate.

Por que o Monero era o caso mais difícil

Monero não é uma moeda qualquer dentro de uma corretora descentralizada. Bitcoin e ethereum têm endereços transparentes, e qualquer um pode conferir o saldo olhando a rede. Monero foi desenhada para que essa conferência não funcione, que é o ponto da moeda. Endereço, quantia e destinatário ficam escondidos por padrão, e só quem tem a chave de visão enxerga o histórico.

Uma corretora que promete auditoria pública não consegue oferecer isso sem quebrar. Foi por isso que a THORChain passou anos sem aceitar Monero, e a decisão virou discussão pública na comunidade da moeda. A solução que a equipe de engenharia encontrou foi abrir mão da transparência. Cada transação de Monero que entra ou sai gera uma imagem de chave, um identificador único que impede o mesmo dinheiro de ser gasto duas vezes, e a verificação continua pública mesmo com os valores escondidos. Em 14 de maio, a THORChain mostrou publicamente a primeira troca completa de RUNE para XMR em ambiente de teste, com dinheiro real e sete nós operando.

O outro detalhe é operacional. O Monero roda ao lado do núcleo da THORChain como um componente separado, escrito em Rust, apoiado na biblioteca de carteira Monero Oxide. Ou seja, a integração não fez o Monero caber dentro da arquitetura antiga. Construiu uma peça ao lado dela.

A promessa que ainda não chegou

A troca entre redes continua pendente. O anúncio fala em teste e auditoria, e a THORChain confirmou ao longo do ano que a entrada em produção depende de mais teste de estresse e deve começar com pools pequenos.

Os dois comunicados não dizem a mesma coisa. A nota de lançamento da versão 3.20, em agosto, diz que a troca nativa de Monero e Zcash já está liberada no protocolo. O anúncio da carteira, em outubro, descreve a mesma troca como etapa seguinte, ainda em teste. As duas informações podem estar corretas em momento e escopo diferentes, e a diferença não é pequena para quem quiser usar a troca no dia a dia.

Guardar Monero em carteira de celular sem passar por corretora centralizada já era possível com outros aplicativos. A troca direta entre redes é o que tira a moeda do isolamento, e ela ainda não chegou.

Os números em volta

O Monero está em US$ 547, com capitalização de mercado de US$ 10,3 bilhões e volume diário de US$ 109 milhões. É a 14ª moeda do mercado. A máxima do ano foi US$ 797,73 em 14 de janeiro, e a moeda está 31% abaixo desse nível. Nos últimos doze meses subiu 66,7%, com uma mínima de US$ 314 em 10 de julho nos últimos três meses e uma máxima de US$ 614 em 21 de setembro.

O token da THORChain é a parte fraca da história. O RUNE vale US$ 0,78, tem capitalização de US$ 257 milhões e está 97% abaixo da máxima de US$ 20,87 alcançada em maio de 2021. No último mês subiu 63%, a maior alta do período, e ainda assim acumula queda de 34,9% em doze meses. O valor total travado na THORChain é de US$ 39,6 milhões, menos de 1% dos US$ 5,4 bilhões que a corretora diz ter movimentado desde 2021.

Uma plataforma que intermediou US$ 5,4 bilhões em cinco anos e mantém US$ 39,6 milhões parados na rede está muito abaixo do próprio histórico de uso. A integração com Monero pode puxar esse número, porque traz um tipo de usuário que as moedas transparentes não trazem.

⚠️ Aviso importante

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