O FMI achou volatilidade 1,5 vez maior no mercado de ações tokenizadas
O FMI mediu o mercado americano de ações tokenizadas e chegou a um retrato de dois lados. A negociação acontece em boa parte fora do pregão das bolsas, o que revela procura por acesso sem interrupção. O mesmo levantamento encontrou um mercado menor, mais instável e com menos liquidez que as praças que ele imita.
O capítulo sobre tokenização faz parte do relatório semestral de estabilidade financeira do Fundo, apresentado nesta quinta-feira em Seul, em evento ao lado do Banco da Coreia. O assunto ganha uma seção própria no documento pela primeira vez, e o relatório sai completo no dia 13, durante a reunião anual do Fundo e do Banco Mundial.
A negociação que não espera o pregão
Nos Estados Unidos, mais da metade do volume negociado em ações tokenizadas saiu do horário regular das bolsas. Perto de 80% das operações foram feitas em frações de ação, ou seja, em quantias menores que um papel inteiro.
O relatório lê os dois números como o mesmo sinal, o de que existe demanda por um mercado que não fecha e que aceita entradas pequenas.
O tamanho ainda é modesto. No recorte do relatório, o conjunto de ativos do mundo real tokenizados chegava a US$ 65 bilhões, ao fim de julho. Títulos de dívida e fundos respondiam por US$ 48 bilhões, e as ações por apenas US$ 2,3 bilhões. Para dar escala, os mercados de capital do mundo guardam perto de US$ 300 trilhões em ativos.
A parte que já roda em volume alto é a das operações compromissadas, os empréstimos de curtíssimo prazo que os bancos usam para financiar posições. A versão tokenizada delas movimenta, a cada dia, algo entre 300 e 350 bilhões de dólares.
O mercado americano equivalente, para comparar, gira perto de US$ 13 trilhões por dia.
O preço que vem junto
A volatilidade medida no mercado tokenizado ficou cerca de 1,5 vez acima da registrada nas praças tradicionais. A liquidez também é menor, e a diferença se acentua nas plataformas descentralizadas, onde a perda de profundidade foi mais forte do que nas centralizadas.
A fragmentação aparece no próprio levantamento. Nenhuma plataforma domina o mercado, e a maior fatia, perto de 60%, fica com um bloco de emissores menores. Tether, Justoken, Circle, Ondo, Securitize e Bridgetower aparecem nomeados, todos com fatias de um dígito.
O relatório também mediu a influência dos preços que nascem ali. Movimentos registrados no mercado tokenizado logo após o fechamento do pregão se refletiram depois nos preços das ações tradicionais, em 87% dos casos ou mais.
O risco que o Fundo destaca está na automação. Com negociação 24 horas, gestão automática de garantias e liquidação automática, um pedido de margem pode virar uma onda de vendas forçadas em pouco tempo. A reutilização das mesmas garantias em várias operações amplia a alavancagem, e a ligação entre plataformas que conversam entre si faz um choque local viajar depressa.
O corte de etapas tem dois lados. Processos que a tokenização elimina, como a troca de mensagens entre as partes, a espera pela liquidação e a conferência manual, encarecem a operação hoje e servem de amortecedor em momentos de estresse.
O que o Fundo pede
A receita do relatório começa pela segurança jurídica. As leis precisam deixar claro quais direitos um token carrega, na emissão e no resgate, e as regras devem recair sobre o serviço prestado, acompanhando o risco de cada operação, para fechar a brecha de arbitragem entre países.
O documento pede ainda padrões comuns de liquidação, para que ativos e dinheiro circulem entre plataformas, e defende o uso de dinheiro de banco central na quitação dos papéis.
Na parte de estabilidade, o Fundo recomenda acompanhar a liquidez dentro do dia e fora do horário comercial, submeter as instituições a testes de estresse nesses períodos e revisar se os freios de emergência das bolsas, que param a negociação em quedas fortes, funcionam nesse desenho novo.
O relatório completo sai no dia 13, durante a reunião anual do Fundo e do Banco Mundial, com o capítulo principal dedicado aos riscos que seguem sem solução no sistema financeiro.
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