Macro

Dívida dos EUA beira US$ 40 trilhões e aperta o bolso que compra bitcoin

A dívida dos Estados Unidos chegou a US$ 39,9 trilhões na terça-feira, a poucos passos da marca simbólica de US$ 40 trilhões. São US$ 116 mil por americano, ou quase dois bitcoins na cotação atual. O número já alimenta a tese de proteção em ativos escassos. Mas o relatório divulgado na mesma data pelo Conference Board revela que essa mesma dívida está corroendo o poder de compra das famílias que querem entrar em crypto. O aperto fiscal atinge quem menos pode resistir.

O estudo modelou cinco cenários fiscais, incluindo um teste de estresse com moratória de uma semana. Nesse cenário extremo, parcelas de empréstimos para pequenas empresas saltariam 21,6 por cento, custos de financiamento estudantil subiriam 8,7 por cento e gastos com moradia chegariam a 6,7 por cento acima do normal. A moratória é só um teste de estresse. O Congresso sempre levantou o teto antes de perder pagamentos, inclusive na crise de 2023. Mas o cenário-base já é pesado. A projeção aponta dívida em 154 por cento do PIB em 2036, e o fundo previdenciário principal da Social Security deve ficar sem caixa em 2032.

O que a dívida significa para quem compra crypto

Juros consomem US$ 2,8 bilhões por dia.

O custo anual da dívida deve ultrapassar US$ 1,37 trilhão neste ano fiscal, ficando atrás somente da Previdência e do Medicare. Para um aposentado com benefício mensal de US$ 2.100, o cenário de déficits maiores significaria perda de cerca de US$ 170 por mês. É dinheiro que não sobra para bitcoin.

A pesquisa do JPMorgan Chase Institute, cobrindo dados de 2015 até a primeira metade de 2022, revelou que o investidor mediano injetou cerca de US$ 620 em criptomoedas no período total. Menos de uma semana de salário líquido. Hoje, US$ 620 compram menos de 0,01 BTC. A faixa de renda que menos tem para poupar pagou mais caro por bitcoin, segundo o estudo, com renda baixa adquirindo a US$ 45.400 por moeda contra US$ 42.400 para os de maior renda.

US$ 620 cabem em quase qualquer orçamento. O aperto nos juros decide se esse valor continua lá.

A pressão sobe pelos dois lados. O relatório projeta que déficits maiores adicionariam US$ 55 mil na conta de financiamento imobiliário de uma família modelo ao longo de cinco anos, mais de US$ 900 por mês. Um estudo do OFR, o escritório de pesquisa financeira do Tesouro, documentou que nas áreas com maior exposição a crypto, a parcela de famílias de baixa renda com hipoteca quase quadruplicou entre 2020 e 2024. Crypto já faz parte dos balanços domésticos, e a dívida aperta exatamente onde esses balanços são mais frágeis.

O yield dos Treasuries de 30 anos opera em 5,28 por cento, nível que não aparecia desde 2003.

O déficit de julho chegou a US$ 432,3 bilhões, o maior desde março de 2021. Empresas americanas emitiram quase US$ 1,7 trilhão em bonds no ano, 27 por cento acima do mesmo período em 2025. Todo esse volume de dívida compete com criptomoedas pelo capital dos investidores.

O mercado de bonds já compete com criptomoedas

O bitcoin se mantém em US$ 64.595, com ganho de 0,27 por cento em 24 horas. A operação de carry com futuros de bitcoin voltou a superar os yields de dois anos dos Treasuries, reforçando a tese de retorno ajustado ao risco acima do título seguro. Mas a leitura do mercado de bonds reabriu o debate sobre qual ativo permanece sólido quando os próprios títulos do governo americano perdem valor.

A dívida de US$ 40 trilhões é o argumento mais forte para possuir um ativo com oferta limitada. Mas ela também drena o caixa das famílias que comprariam esse ativo.

Para o investidor americano médio, que transfere US$ 620 para crypto e paga mais por cada bitcoin do que os de renda alta, a tese do hedge vale na teoria. Na prática, o dinheiro que sobra no fim do mês é o que define se bitcoin cabe no orçamento.

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