Segurança

O Google entra na custódia de cripto com MPC, e o CERT achou uma falha na Fireblocks

A Google apresentou nesta quarta-feira o Multi-Party Compute, serviço para bancos e gestoras guardarem e moverem criptomoedas e ativos tokenizados sem que a chave privada inteira exista em um só lugar. O produto está em prévia privada, com instituições financeiras testando, e a empresa planeja a versão comercial para o começo de 2027, sem preço definido. A Alphabet, controladora do Google, já usa o sistema para proteger os próprios ativos em Ethereum e Solana, segundo a empresa.

A apresentação aconteceu no primeiro simpósio de ativos digitais que a companhia realiza em Nova York. Nenhuma das instituições que testam o serviço foi identificada, e a Google não divulgou quais ativos a Alphabet mantém sob o sistema. A empresa também não apresentou comparação de desempenho verificada por terceiros com os produtos de custódia que já estão no mercado.

Dois dias antes, o CERT/CC, o centro de coordenação de vulnerabilidades ligado à Universidade Carnegie Mellon, publicou um problema na biblioteca de MPC da Fireblocks, uma das fornecedoras que o Google vai encarar nesse mercado. O aviso saiu na segunda-feira 26 e foi revisado na terça.

O que o Google está vendendo

O desenho separa a chave em partes. Um banco pode manter um pedaço no Google Cloud, outro no próprio hardware e um terceiro em outra nuvem, e a transação só é assinada quando as partes suficientes concordam. A Google diz aceitar arranjos em que duas de três partes assinam, ou cinco de sete.

Antes da assinatura, a transação passa por um motor de regras que roda dentro do Confidential Space, o ambiente de computação isolado por hardware que a empresa usa para cargas sensíveis. É ali que ficam limites de valor, restrições de carteira de destino e exigência de aprovação de mais de um departamento. Pelo desenho, o material da chave segue sob controle do cliente, e a Google diz não conseguir lê-lo em texto aberto, mesmo com as partes rodando na infraestrutura dela.

A versão comercial deve suportar as assinaturas ECDSA e Ed25519 e, mais adiante, migrar para criptografia resistente a computadores quânticos. O Google já oferecia serviços de gestão de chaves, como o Cloud KMS e o Cloud HSM, e desde 2023 publica orientação para clientes montarem sistemas de MPC sobre o Confidential Space. O que muda agora é a entrega pronta, com assinatura, política e recuperação no mesmo pacote.

A falha que o CERT publicou

O aviso VU#701544 trata de outro ponto do mesmo tipo de sistema. A biblioteca de código aberto da Fireblocks implementa a derivação de chaves do padrão BIP32, que cria uma chave filha a partir de uma chave mãe e isola cada nível da hierarquia. No caso de falta da chave privada mãe, a implementação preenche a contribuição com zeros, quando o certo seria recusar a operação. O registro recebeu o número CVE-2026-90975.

Com o valor zerado, o cálculo que separa a chave filha da mãe passa a ser reproduzível por quem tem o chain code, o código que acompanha a chave na derivação. Um invasor que comprometa uma única parte de assinatura no nível mais baixo e conheça esse código consegue calcular a diferença e voltar um nível acima, repetindo o movimento até chegar à raiz daquela parte. O que se perde é a separação entre os níveis, uma camada de proteção que existe justamente para o caso de uma parte ser comprometida.

O próprio aviso limita o alcance. A camada de MPC continua valendo, e o comprometimento de uma parte não reconstrói a chave privada completa nem permite gastar os fundos sozinho. O dano está na camada que sobrevive ao vazamento, porque a derivação reforçada deixa de isolar os níveis depois que uma parte é comprometida, e porque a degradação acontece sem erro e sem registro no log.

Há uma condição prática que amplia o risco. Em muitas instalações de BIP32 o chain code é tratado como informação pública, distribuída em chaves estendidas somente leitura para carteiras de observação. Onde isso acontece, o pré-requisito do ataque deixa de ser um obstáculo.

O que a falha diz sobre a nova oferta

O aviso registra que a Fireblocks não foi localizada para coordenar a correção e que, na data da publicação, não havia versão corrigida da biblioteca. As medidas ao alcance de quem integra o sistema são manter o chain code em segredo, revisar os caminhos de derivação que usam o modo reforçado e tratar o comprometimento de qualquer parte como exposição das outras partes daquele mesmo dono. A correção completa depende de mudar a biblioteca.

O caso desenha o argumento que a Google está tentando vender e, ao mesmo tempo, o teste a que ela vai ser submetida. A criptografia do MPC não quebrou. O que falhou foi uma linha de código que deveria recusar uma operação e não recusou, e esse tipo de erro pode estar na implementação de qualquer fornecedor, inclusive de quem entra agora. A promessa de que a chave nunca existe inteira não cobre a pergunta que o cliente de custódia precisa fazer, sobre o que acontece quando o software erra para o lado permissivo.

A oferta da Google também desloca a confiança para outro lugar. No arranjo dela, a regra que autoriza a transação roda em hardware atestado, e a empresa diz não ter acesso ao material em texto aberto. Isso resolve parte do problema de quem não quer entregar a chave a um provedor de nuvem. O que o aviso do CERT mostrou continua de pé, porque o motor de políticas e o código de derivação são software que alguém escreveu.

O estado dos dois produtos é este. O Google tem um produto em prévia privada, com lançamento comercial previsto para o começo de 2027 e sem preço. A Fireblocks tem um aviso público de falha na biblioteca, sem correção disponível na última revisão, e uma mitigação que depende de manter o chain code longe de terceiros. Quem guarda cripto por procuração passa a ter duas perguntas novas para fazer ao fornecedor, e nenhuma delas é sobre o tamanho da chave.

⚠️ Aviso importante

As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.

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