Macro

A Petrobras cai 25% em Nova York, e a B3 suspende o pregão no dia seguinte à vitória de Lula

Os recibos de ação da Petrobras negociados em Nova York caíam cerca de 25% no começo da manhã desta segunda-feira, perto de US$ 20, depois de o presidente Lula (PT) vencer o segundo turno e conquistar o quarto mandato. Às 10h05, a B3 suspendeu as negociações de ações por 30 minutos com o acionamento do circuit breaker. Nenhuma eleição presidencial havia parado a bolsa brasileira desde que o mecanismo passou a valer, em 1997.

Lula terminou a apuração com 51,79% dos votos válidos, 64,2 milhões de votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro (PL), 59,8 milhões. A vantagem de 4,4 milhões veio três semanas depois de o senador terminar o primeiro turno 2,2 milhões à frente, resultado que o mercado financeiro leu como sinal de troca de governo e de ajuste nas contas públicas. O senador disse que pedirá a anulação do pleito, e o Tribunal Superior Eleitoral sustenta que a prorrogação da votação decidida pelo Supremo não alterou o processo.

A aposta ficou visível nos preços. Entre os fechamentos de 2 e 23 de outubro, o Ibovespa subiu 6,9%, de 192,1 mil para 205 mil pontos, e o dólar recuou 4,4%, para R$ 4,98. A PETR4 encerrou a sexta-feira a R$ 58,68, alta de 1,47%, depois de marcar R$ 59,79 na máxima do dia. O rali começou no primeiro pregão depois do primeiro turno, quando o índice subiu 7,7%, a maior alta diária desde março de 2020, e a ação da estatal avançou 8,19%.

O recibo em dólar mistura duas quedas

O papel vendido em Nova York é cotado em dólar, então a queda dele soma dois movimentos, o da ação e o do câmbio. Com a moeda americana em alta de 12,2% e o recibo perto de 25% de perda, a queda equivalente em reais fica próxima de 16%, o que levaria a PETR4 para a casa dos R$ 49. O leilão de abertura da B3 não chegou a fechar preço, e o índice não tinha nível formado quando o pregão foi interrompido.

A sessão começou travada. O índice futuro recuou 19,85% na mínima, a 167.055 pontos, e a B3 ampliou duas vezes o limite de oscilação dos contratos, de 10% para 15% e depois para 20%, em medida válida apenas para esta segunda-feira. O dólar à vista abriu a R$ 5,42 e chegou a R$ 5,60, alta de 12,2%, com duas interrupções no caminho. Os juros futuros abriram cerca de 190 pontos-base nos vencimentos longos, e o Tesouro suspendeu as ofertas de papéis prefixados e de títulos corrigidos pela inflação que estavam marcadas para terça e quinta-feira.

O que o mercado cobra da estatal

Nenhuma empresa da bolsa depende tanto do que o governo decide sobre preço de combustível quanto a Petrobras. Em 9 de setembro, a companhia anunciou aumento de R$ 0,19 por litro na gasolina e voltou atrás horas depois, sem explicar o motivo. O Itaú BBA avaliou que o episódio afetou a previsibilidade e a independência da política de preços, em um momento em que o diesel era vendido com desconto de 31% em relação à paridade de importação e a gasolina, de 26%.

O governo autorizou, no mesmo período, subvenção adicional ao diesel de até R$ 1,00 por litro. Na sexta-feira, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse que a equipe deve manter os subsídios a combustíveis em 2027 caso o Brent siga em patamar alto e não descartou prorrogar o imposto sobre exportação de petróleo criado depois da guerra no Oriente Médio.

Preço-alvo cortado, recomendação mantida

O Bradesco BBI cortou de R$ 62 para R$ 55 o preço-alvo da PETR4 para o fim de 2027, sem mexer nas estimativas de produção, custo ou refino. A mudança veio do retorno exigido pelo acionista, que o banco elevou de 8% para 10% em dividendos. A recomendação de compra ficou de pé.

O BTG Pactual calcula produção de cerca de 2,68 milhões de barris de óleo equivalente por dia no acumulado do ano, acima da projeção da própria companhia, e estima US$ 15 bilhões em dividendos em 2027, o equivalente a um rendimento de 11%. O banco mantém a ação como sua principal escolha entre as petroleiras. O Itaú BBA trabalha com preço-alvo de R$ 63 para o fim de 2027.

A Genial Investimentos calculava, às vésperas da votação, um desconto de 34% da PETR4 diante das petroleiras privadas do exterior, com a ação cotada 16% acima das congêneres estatais.

O que aconteceu em 2014 e em 2022

Nas duas últimas vezes em que a esquerda venceu a eleição presidencial, a estatal abriu o pregão seguinte em queda. Em 2014, quando Dilma Rousseff foi reeleita, a Petrobras caiu 11% no dia. Em 31 de outubro de 2022, a PETR4 recuou 8,75%, a R$ 29,72, e a companhia perdeu R$ 34,2 bilhões em valor de mercado em uma sessão em que o Ibovespa subiu 1,31%. O JPMorgan cortou a recomendação para neutra e levou o alvo para R$ 37, contra R$ 53 antes da eleição.

A estatal inicia o novo mandato com a produção do ano acima do que ela própria havia projetado e balanço considerado saudável, e a ação estava a 1,9% da máxima histórica de sexta-feira.

O discurso da vitória não tratou de política fiscal nem da formação da equipe econômica. A equipe do presidente prepara uma PEC para permitir a busca pelo centro da meta fiscal, ainda sem data de envio ao Congresso, e a definição de quem comandará a Fazenda continua aberta.

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