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Demanda por stablecoins no Brasil dispara 135% e domina 90% do mercado

Demanda por stablecoins no Brasil dispara 135% e domina 90% do mercado

US$ 14,68 bilhões foi o que os brasileiros gastaram em crypto no primeiro semestre de 2026, segundo dados do Banco Central divulgados nesta semana, mais que dobrando os US$ 6,24 bilhões registrados um ano antes em um salto de 135%.

Só em junho as compras atingiram US$ 2,54 bilhões contra US$ 1,48 bilhão no mesmo mês do ano anterior, e o crescimento não é linear porque ele acelera.

Mas foi maio que acendeu o alerta mais forte, com os brasileiros comprando US$ 2,632 bilhões em stablecoins em um único mês, uma alta de 158% na comparação anual. O número por si só já seria notícia, mas o contexto é que ele se repete.

Os números foram apresentados por Fernando Rocha, chefe do Departamento de Estatísticas do BC.

Em entrevista ao Valor Econômico, ele foi direto ao dizer que “O mercado de criptoativo é relativamente novo, já não tão novo assim. Ainda está em expansão, tanto no Brasil quanto no mundo. Está se consolidando e descobrindo aplicações e usos.” A declaração tem peso porque vem de dentro da autoridade monetária que, até pouco tempo, tratava o setor com desconfiança.

O dado mais contundente da entrevista, no entanto, é outro.

A virada das stablecoins

Rocha revelou que entre 90% e 95% de toda a demanda identificada pelo BC é por stablecoins, moedas digitais atreladas ao dólar como USDT e USDC. “Mudou radicalmente”, disse ele, explicando que há alguns anos a procura era concentrada em bitcoin e moedas voláteis.

A mudança é profunda, porque as stablecoins funcionam como proxy de dólar para pagamentos, remessas internacionais e liquidação de transações. Num país com histórico de desvalorização cambial como o Brasil, o apelo é imediato, com o cidadão comum trocando real por dólar digital sem precisar de conta no exterior.

O governo federal percebeu o movimento e tentou reagir, com uma proposta de taxa de 3,5% sobre todas as transações com stablecoins considerada pelo governo Lula para capturar parte do fluxo para os cofres públicos.

A medida foi adiada por motivo eleitoral.

A atual administração entrou em modo de campanha e a tributação das stablecoins perdeu prioridade na pauta do Congresso, devendo voltar à mesa depois das eleições de outubro independentemente de quem vencer.

Os números do BC têm limitações importantes que o próprio Rocha reconheceu, já que as estatísticas capturam apenas as transações realizadas por prestadoras de serviços de ativos virtuais registradas. Quem opera fora do radar simplesmente não aparece.

“É como se a gente tivesse acesso às fontes desses recursos, mas não sabe exatamente o uso”, disse Rocha. Hoje o BC consegue identificar a origem dos recursos mas não o destino final dentro do balanço de pagamentos do país.

Regulação em 2027

Isso muda em janeiro de 2027, quando as plataformas de criptoativos e as prestadoras de serviços de ativos virtuais (SPSAV) serão enquadradas como instituições Classe 3, passando a cumprir as mesmas exigências que corretoras de valores, distribuidoras e corretoras de câmbio tradicionais, com o arcabouço prudencial completo do Sistema Financeiro Nacional aplicado ao setor.

O novo regime permitirá ao BC rastrear o destino dos recursos com precisão muito maior, e a dúvida real é se a regulação vai frear a adoção ou trazer mais credibilidade, com a resposta dependendo de como o mercado reagir ao custo do novo ambiente regulatório.

Historicamente regras claras tendem a atrair capital institucional, mas o enquadramento como Classe 3 também impõe custos de compliance pesados que podem expulsar players menores e informais.

Enquanto o debate regulatório não se resolve, o dado concreto é que o Brasil já vive uma realidade diferente da maioria dos mercados emergentes, com a demanda por crypto no país crescendo e trocando de rosto ao mesmo tempo.

As stablecoins não são mais uma fatia do bolo. São o bolo inteiro.

⚠️ Aviso importante

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