Bitcoin

BlackRock compra, mas quem comprou ETF de bitcoin segue perdendo

A BlackRock comprou US$ 273,2 milhões em bitcoin em dois dias e, sozinha, fez mais do que todo o mercado de ETFs na semana. Os fluxos da Farside mostram o iShares Bitcoin Trust (IBIT) com entrada de US$ 209,6 milhões em quatro sessões, enquanto as outras onze emissoras somadas ficaram no negativo. O setor que prometia democratizar o acesso ao bitcoin virou um jogo de um fundo só.

O IBIT não compra por conta própria. As cotas são criadas conforme os clientes pedem, e cada criação exige bitcoin na mesma proporção. A Arkham, que acompanha os endereços on-chain do fundo, registrou resgates de US$ 63,6 milhões no início da semana e compras de US$ 273,2 milhões nos dois dias seguintes.

Uma semana, um protagonista

O número mais revelador é o da concentração. Na quinta, o IBIT atraiu US$ 183,4 milhões dos US$ 233,1 milhões que entraram no complexo, cerca de 79%, a maior entrada diária do mês desde 6 de julho. Na semana fechada, o fundo recebeu US$ 209,6 milhões contra US$ 203,9 milhões de todo o setor, o que significa que as outras onze emissoras, juntas, devolveram US$ 5,7 milhões.

Fidelity, Bitwise, Ark, VanEck e o restante do grupo ficaram com migalhas. A FBTC, segunda maior emissora, perdeu US$ 30,4 milhões na semana, e a ARKB devolveu US$ 13,1 milhões.

O retrato de quem comprou o produto, porém, é bem menos confortável. Dados da Bloomberg compilados pela Hedgeye mostram que o comprador médio de ETF de bitcoin nos EUA está 22% no vermelho, com custo médio de US$ 82.249 contra os US$ 64.114 atuais. Em 20 de julho, as perdas não realizadas somavam US$ 16,33 bilhões, uma virada brutal em relação ao pico de US$ 86,32 bilhões de ganho de outubro passado, quando o bitcoin fez US$ 126.080.

O mecanismo é direto. Cotas criadas viram compra de bitcoin, e cotas resgatadas viram venda. É por isso que o fluxo do IBIT é lido como termômetro do apetite institucional, não como opinião da gestora sobre o preço.

O IBIT também mostrou a cara do resgate. Nos dias 23 e 24, saíram US$ 202,5 milhões e US$ 212,2 milhões, os maiores resgates diários de julho.

A gestora, ainda assim, mantém o discurso de compra. A própria BlackRock recomendou oficialmente 1% a 2% de bitcoin em carteiras institucionais, e Larry Fink disse à CNBC que a desalavancagem ficou para trás. Os números dão razão a ele aos poucos, já que junho, o pior mês da história, foi seguido por uma recuperação de cerca de US$ 438 milhões em julho.

O IBIT concentra hoje US$ 47,67 bilhões em ativos, cerca de 61% de todo o complexo, segundo a página oficial da iShares.

A diferença entre o fluxo acumulado e a posição atual se explica pela Grayscale. O IBIT soma US$ 60,6 bilhões de entradas líquidas desde o lançamento, enquanto a Fidelity acumula US$ 9,98 bilhões, a Bitwise US$ 2,02 bilhões e a Ark US$ 1,32 bilhão. O GBTC, por sua vez, devolveu US$ 27,42 bilhões, o que faz do IBIT o único motor do crescimento líquido do setor.

O risco de depender de um só

O problema dessa arquitetura é a dependência. Se o fluxo do IBIT estagnar, o setor inteiro estagna, porque não há segunda linha de demanda para compensar. O caso da Fidelity ilustra o risco, com a FBTC devolvendo US$ 43,1 milhões na quarta, dia de entrada forte do concorrente.

Para o investidor no vermelho, a conta é longa. O bitcoin precisaria subir cerca de 30% dos US$ 62,9 mil atuais para trazer o comprador médio de volta ao zero a zero, e nada no fluxo atual sugere que esse movimento venha do mercado de ETFs. A assimetria é visível, com o dinheiro novo entrando pelo fundo da BlackRock enquanto os compradores antigos seguem presos à espera do ponto de equilíbrio.

A institucionalização prometida em janeiro de 2024 está acontecendo de forma torta. O produto atraiu US$ 51,6 bilhões em dois anos e meio, mas a distribuição desse volume revela concentração, não adoção.

A BlackRock compra porque seus clientes pedem, e o dinheiro novo segue o nome da gestora. O setor nasceu para diversificar o acesso, mas terminou girando em torno de uma única casa. Um mercado que depende de um só emissor para respirar carrega o risco do próprio sucesso, e o investidor da onda de 2024 aprendeu no bolso o que custa apostar no produto sem medir a saúde de quem o carrega.

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