AAVE recupera 67% e o protocolo volta a atrair depósitos
O AAVE saiu de US$ 60,93 no começo de junho para US$ 101,69 no fim de julho, uma recuperação de 67% que devolveu ao token o posto de destaque entre os protocolos de empréstimo. A alta veio junto com a volta do capital, com o valor total travado subindo de US$ 12,17 bilhões para US$ 14,44 bilhões em um mês e os empréstimos ativos somando US$ 11,16 bilhões em mais de 20 redes, segundo a DeFiLlama. O mercado de empréstimo descentralizado voltou a olhar para o Aave como referência, e os números do protocolo passaram a mostrar recuperação, e não mais sobrevivência.
O movimento fecha um ciclo aberto em abril, quando um roubo de US$ 292 milhões mudou o rumo do protocolo.

Quando a ponte da KelpDAO foi explorada e o dinheiro roubado entrou no Aave como garantia, os depósitos despencaram de US$ 26,4 bilhões para US$ 14,1 bilhões em duas semanas. O mercado de empréstimo perdeu quase metade do volume, o preço do token afundou junto e o pânico tomou conta das mesas de negociação, com o AAVE caindo para US$ 60,93 no fundo de junho, 86% abaixo do recorde histórico que o papel marcou em maio de 2021.
Quem comprou o ativo naquele fundo viu o token disparar em sete semanas.
O que sustentou a virada foi a combinação de duas coisas que raramente andam juntas. O protocolo manteve a geração de receita enquanto limpava o risco, com a V3 produzindo cerca de US$ 963 mil por dia em taxas, algo como US$ 28 milhões no mês, e a receita anualizada do ecossistema chegando a US$ 134 milhões, com 100% indo para o tesouro do DAO desde que a proposta Aave Will Win passou em abril.
O V4 e a expansão que trouxe o capital de volta
O Aave V4 entrou no ar no Ethereum em março com uma arquitetura nova, o modelo hub and spoke, que centraliza a liquidez em um núcleo único e deixa cada rede conectar seus próprios colaterais. Na prática, um usuário que deposita na Base empresta para quem toma na Arbitrum, e um mercado novo nasce já com liquidez de todos os outros, reduzindo o atrito que sempre fragmentou o capital entre blockchains.
Os números mostram que a tese começou a se confirmar. O V4 passou de US$ 250 milhões em depósitos em julho, recorde da versão, e o mercado lançado na Monad, rede de alta performance criada por ex-desenvolvedores da Jump, superou US$ 100 milhões em apenas dois dias, com US$ 15 milhões em incentivos da fundação da rede.
A stablecoin nativa do protocolo, a GHO, acompanhou o movimento e mantém a paridade em US$ 0,998, com US$ 648 milhões em circulação.

A expansão, porém, veio com uma poda. No fim de julho, a LlamaRisk propôs desativar 50 reservas de baixa adoção e encerrar seis mercados inteiros, entre eles Sonic, Scroll e zkSync, um processo que afeta US$ 98 milhões em ativos depositados e US$ 15,6 milhões em dívidas. A limpeza é a aplicação prática do novo framework de risco criado após o exploit da KelpDAO, e o objetivo é cortar o custo operacional de manter oráculos e infraestrutura de liquidação para ativos que ninguém usa.
O que os números dizem sobre o token
O AAVE negocia a US$ 92,33, com capitalização de US$ 1,42 bilhão e um fornecimento quase todo em circulação, 15,42 milhões de tokens dos 16 milhões que existirão. O papel ainda está 86% abaixo do recorde histórico de US$ 661,69 de maio de 2021, e acumula queda de 63% em doze meses.
No curto prazo, o ativo forma um desenho técnico de recuperação, com fundos ascendentes desde junho e volume de US$ 223 milhões em 24 horas. O interesse no contrato futuro acompanha o preço, com open interest na Binance de 543 mil AAVE, cerca de US$ 50 milhões em posições, e taxa de funding levemente negativa, o que indica que o mercado ainda não está exageradamente comprado.
No papel de análise, o cenário de alta ganharia força acima de US$ 105 e abriria caminho para US$ 118, enquanto a perda de US$ 87,98 recolocaria o teste dos US$ 80.
O mercado institucional também começou a falar do Aave. O Standard Chartered iniciou cobertura do token em junho com alvo de US$ 3.500 até 2030, uma aposta de 50 vezes sobre o atual, calcada na previsão de que os ativos do mundo real tokenizados e as stablecoins vão levar o DeFi a US$ 2,7 trilhões. O banco chamou a recuperação do protocolo de oportunidade geracional, citando exatamente o que os dados on-chain mostram, a volta dos depósitos depois do susto de abril.
O que esperar de agosto
Agosto coloca três frentes na mesa. A primeira é a governança, com a votação da depreciação das reservas e a implementação do novo framework de risco, que define o padrão de listagem de ativos no V3, V4 e no horizonte da Aave.
A segunda é o desenho do Aavenomics 3.0, um mecanismo de recompra automática e não discricionária de tokens usando a receita do protocolo, anunciado pelo fundador Stani Kulechov como o próximo passo da economia do Aave. Se aprovado, o AAVE ganha um fluxo comprador recorrente alimentado pelo caixa do próprio protocolo, algo que nenhuma das grandes plataformas de empréstimo conseguiu sustentar até hoje.
A terceira frente é a mais delicada e envolve a própria natureza do protocolo. A Aave recebeu e recusou uma proposta de compra de 15% por US$ 385 milhões da Payward, dona da Kraken, em junho, com Kulechov descartando publicamente vender o token com desconto de 70% do valor totalmente diluído. A recusa sinaliza que o controlador do protocolo aposta na valorização orgânica, mas também liga o alerta de que há compradores esperando o preço certo para entrar no capital da maior plataforma de empréstimo do Ethereum.
O equilíbrio de agosto, portanto, é entre a tese de crescimento e o peso do histórico. O protocolo voltou a crescer, a receita está no caixa do DAO e a recompra de tokens, se aprovada, muda a relação entre oferta e demanda do AAVE pela primeira vez em anos.
Ao mesmo tempo, o token ainda carrega uma queda de 63% em doze meses e um mercado cripto que segue tímido, com o bitcoin preso perto de US$ 63 mil.
Se o Aavenomics 3.0 sair do papel e a expansão do V4 continuar no ritmo de julho, o Aave entra em setembro com a melhor combinação de fundamentos desde o ciclo de 2021.
Se agosto esfriar e o bitcoin derrubar o mercado junto, o teste dos US$ 80 volta à mesa. Os dois cenários cabem no mesmo protocolo, e é exatamente essa dualidade que define o momento do Aave.
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