Blockchain

Bitcoin viaja sem internet escondido em sinais de AirTag

Um dispositivo do tamanho de um chaveiro mandou bitcoin para outra pessoa sem nunca se conectar à internet. A placa se passou por uma AirTag perdida e ficou emitindo um sinal de Bluetooth. Cada iPhone que passava por perto tratava aquilo como um item desaparecido e repassava o sinal para os servidores da Apple. Do outro lado, o destinatário recolhia os registros guardados pela empresa e ia remontando o pagamento peça por peça, até o valor ficar inteiro.

O anúncio saiu no X na quarta-feira, 30, no perfil de calle, criador do protocolo Cashu, que resume o experimento em uma palavra, absurdo.

O código é aberto e está no GitHub, no repositório find-my-nuts. Roda em placas ESP32, as mesmas que aparecem em projetos caseiros de eletrônica, e a documentação cita dois modelos, a Heltec WiFi LoRa 32 e a LILYGO T-Display. O programa gravado na placa se apoia no Nucula, outra carteira de Cashu feita para esse tipo de equipamento.

O que viaja é um token do Cashu, um protocolo de dinheiro eletrônico que mantém o bitcoin guardado como se fosse cédula. Quem tem o token na mão pode gastá-lo, sem conta e sem esperar confirmação na rede.

O token é uma sequência de caracteres e cabe em qualquer lugar em que texto caiba. O protocolo já foi pensado para circular em QR code, em mensagem, em arquivo e até em pedido enviado a um servidor na web. O Find My entrou nessa lista como o mais exótico dos transportes.

Cada transmissão carrega 2 bits de informação. Um token comum precisa de mais de mil disparos seguidos para ser reconstruído inteiro, o que faz da operação algo lento e paciente.

A rede da Apple funciona porque cada iPhone da vizinhança vira um ponto de escuta. É o mesmo mecanismo que faz uma AirTag esquecida aparecer no mapa a quilômetros de distância de quem a perdeu. O experimento aproveitou essa escuta para levar um pagamento.

O que torna o caminho frágil

Nada no meio do caminho é criptografado. O identificador que localiza a mensagem é público, e a documentação avisa que o transporte não prova quem enviou nem esconde o conteúdo.

Os tokens do Cashu se comportam como dinheiro vivo, e qualquer pessoa que consiga montar um deles pode gastá-lo antes do destinatário. A orientação do próprio projeto é mandar apenas valores simbólicos, sem garantia de que a entrega vai se completar.

Do lado de quem recebe, o acesso aos servidores da Apple acontece por um caminho que a empresa nunca publicou. Se a Apple mudar esse caminho, a ferramenta para de funcionar.

Receber também tem exigência própria. O projeto exige uma conta Apple protegida por verificação em duas etapas e guarda a sessão no computador de quem recebe, com a recomendação de usar apenas aparelhos próprios. O envio não começa sozinho. Toda vez que a placa liga, a transmissão vem desligada e precisa ser acionada de novo.

Pesquisadores chegaram antes

Em 2021, uma equipe de pesquisadores alemães mostrou que o sistema Find My servia para escoar informações de aparelhos sem internet, e aquele código virou base para experimentos parecidos desde então.

O Cashu já vinha buscando o pagamento sem internet por caminhos mais simples, com transferência por QR code e por aproximação entre dois celulares.

O que muda aqui é o alcance. Dois aparelhos encostados um no outro já resolviam a conta, e quem não tinha o par por perto não conseguia enviar nem receber. Agora basta um iPhone qualquer de passagem, a poucos metros, para a mensagem andar sozinha.

O resultado é uma via de pagamento montada sobre aparelhos alheios, sem que nenhum deles saiba que carrega valor. Ninguém que passou na rua foi consultado.

Por isso a experiência segue no terreno da curiosidade. O que ela mostra é que uma rede feita para achar coisas perdidas também consegue carregar dinheiro, e que o custo de entrar nesse canal é uma placa que cabe no bolso. Quem opera um iPhone na rua participa do sistema sem ter assinado nada.

Outras frentes do setor perseguem o mesmo objetivo por outros caminhos, entre pagamentos por aproximação e transferências privadas registradas na camada principal da rede.

O repositório resume bem o que o projeto é. Uma carteira de demonstração, feita para valores que ninguém sentiria falta de perder, com entrega lenta e sem garantia de chegada. O token saiu de um lado e foi remontado do outro, o que fecha a prova de conceito.

⚠️ Aviso importante

As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.

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