Blockchain

Rússia coloca rublo digital no ar e Sber prevê saída de 4 trilhões

O Banco da Rússia abriu o rublo digital ao público em 1º de setembro. Dez dias depois, 87 mil contas foram abertas. A adesão inicial é curiosidade, não convicção.

Vladimir Putin sancionou a introdução formal da moeda em julho de 2023. Em julho de 2024, cobrou uma implementação mais ampla. A pressão do Kremlin acelerou o cronograma consideravelmente. O regulador publicou o primeiro documento de consulta em outubro de 2020, apresentou o conceito formal em abril de 2021 e montou um grupo piloto com 12 bancos em junho do mesmo ano. Os testes começaram em janeiro de 2022 e a fase com usuários reais teve início em agosto de 2023.

O que é o rublo digital

O rublo digital não é criptomoeda. Emitido pelo banco central, circula ao lado do papel-moeda e do saldo bancário tradicional. As três formas valem o mesmo.

Pessoas físicas não pagam nada para transferir rúbles digitais. Empresas pagam taxa de 0,3 por cento por operação, com teto de 300 mil rúbles mensais para recarregar a carteira. Plataformas como Ozon, Wildberries, MTS e Aeroflot já aceitam a moeda digital em suas lojas. A rede de supermercados Magnit também está na lista de varejistas prontos. O regulador negociou com 30 bancos para integrar a plataforma até fevereiro de 2024. A expectativa é que a base de comerciantes aceitantes cresça rapidamente após a obrigatoriedade entrar em vigor para grandes empresas.

Rejeição popular e incentivos

A população russa não se empolgou com a nova moeda digital. Pesquisas mostram que a maioria não entende por que precisa de uma terceira forma de dinheiro quando o papel-moeda e o aplicativo bancário já resolvem o dia a dia. Em uma sondagem, apenas 10 por cento disseram que aceitariam receber o salário inteiro em rúbles digitais e outros 5 por cento aceitariam uma parte. O resto acha o conceito abstrato demais para justificar a mudança. A desconfiança tecnológica é agravada pelo receio de vigilância estatal sobre as finanças pessoais.

Para estimular o uso, o regulador paga 0,67 rúble por pagamento de salário processado. O incentivo é pequeno, mas a estratégia é clara. O regulador empurra a moeda com dinheiro e obrigação.

Risco de fuga de depósitos

O Sber, maior banco do país, projeta uma fuga de 4 trilhões de rúbles caso o rublo digital ganhe tração entre clientes corporativos. O número representa recursos que hoje financiam empréstimos e operações bancárias. O Instituto Gaidar de Política Econômica também alertou sobre o efeito negativo na liquidez do sistema. O banco central descarta qualquer risco crítico, mas os atores do mercado estão longe de compartilhar da tranquilidade regulatória.

Os contratos inteligentes são o principal atrativo para empresas. Nabiullina estima de cinco a sete anos para adoção completa. A paciência oficial contrasta com a pressa regulatória.

Vigilância e controle estatal

Toda transação em rublo digital deixa rastro completo na plataforma do banco central. O sistema foi desenhado para que cada pagamento seja rastreável do início ao fim, sem as brechas de anonimato que o papel-moeda permite. Os defensores argumentam que essa transparência combate fraudes e evasão. Os críticos enxergam nela um instrumento de controle sem precedentes sobre a vida financeira dos cidadãos. O regulador terá como acompanhar o que cada pessoa e cada empresa ganha e gasta em tempo real.

O regulador nega que vá restringir o uso da moeda a finalidades específicas. Skorobogatova descarta a prática, mas a tranquilidade é relativa quando se controla a chave mestra.

Pagamentos offline ainda não existem. A função de usar rúbles digitais sem internet nunca saiu do papel. A abertura de carteiras nos bancos também não foi entregue.

Adoção obrigatória em etapas

A obrigatoriedade começa pelos grandes. Doze bancos de importância sistêmica foram obrigados a oferecer o serviço em setembro. Grandes varejistas com receita acima de 120 milhões de rúbles por ano também passaram a ser obrigados a aceitar a moeda digital. Em setembro de 2027, bancos com licença universal e empresas com faturamento superior a 30 milhões de rúbles entram na obrigação. O cronograma segue em frente.

Em setembro de 2028, a exigência alcança empresas com receita a partir de 20 milhões de rúbles. Lojas com faturamento inferior a 5 milhões ficam de fora. O regulador negocia com países amigos para conectar o rublo digital a moedas digitais estrangeiras, ampliando o alcance da moeda para além das fronteiras russas. A ambição é transformá-la em instrumento de comércio internacional.

Por enquanto, a combinação de desconfiança popular, risco aos lucros bancários e vigilância estatal forma um cenário em que a tecnologia avança por decreto, não por adesão voluntária.

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