Ironia quântica. A tecnologia que poderia salvar os bitcoins de Satoshi não alcança ele
🗣 Em abril, Jameson Lopp propôs um plano que parecia drástico. Congelar bitcoins em endereços vulneráveis à computação quântica depois de três a cinco anos, medida que atingiria mais de um terço de todo o BTC em circulação, incluindo a fortuna de Satoshi Nakamoto. Mas o projeto vinha com uma promessa, provas de conhecimento zero (ZK-proofs) permitiriam recuperar esses fundos. Agora o Project Eleven, especializado em pesquisa pós-quântica, entregou um protótipo que cumpre exatamente essa promessa. Só há um problema de timing, a carteira mais icônica do Bitcoin não pode usar.
O paradoxo está na própria arquitetura que protege as carteiras modernas. O Bitcoin usa criptografia de curva elíptica (ECC) para autenticar transações, e um computador quântico capaz de rodar o algoritmo de Shor poderia quebrar essa proteção, o temido Q-Day. A defesa veio em 2012 com o BIP-32, que introduziu a derivação hierárquica de chaves via HMAC-SHA512. Esse processo é unidirecional, dá para ir da semente até o endereço filho, mas o caminho inverso é computacionalmente impossível, mesmo para um quantum. O algoritmo de Grover, a arma quântica contra hashing, só corta a segurança pela metade, e um hash de 256 bits continua exigindo tentativas numa escala cósmica.
O Project Eleven montou uma prova de conhecimento zero exatamente sobre essa defesa. O usuário comprova que detém o material criptográfico acima de seu endereço na cadeia de derivação, que esse material realmente dá origem ao endereço, e ancora a prova a uma mensagem que autoriza a transação de resgate. Tudo isso sem expor chave alguma. O protótipo gera a prova em 243 ms num MacBook Air M5 (quatro núcleos), verifica em 40 ms, e roda com 2 GB de RAM, sem GPU. A versão própria do Project Eleven faz o mesmo em 910 ms só com CPU.
O detalhe que a própria proposta do BIP-361 queria resolver está na arquitetura das carteiras. O truque inteiro depende de haver uma chave acima do endereço na árvore de derivação, ou seja, depende do BIP-32. Satoshi Nakamoto minerou seus blocos entre 2009 e 2010 e desapareceu em 2011, um ano antes de o BIP-32 sequer existir. Na era pré-2012, cada chave era gerada de forma independente, aleatória, sem frase semente, sem caminho de derivação, sem pai na árvore, porque árvore de derivação não era um conceito que existia no código do Bitcoin. O mesmo vale para toda carteira criada antes de 2012, exatamente o grupo mais antigo e dormente que o congelamento do BIP-361 mirou proteger.
A prova de conhecimento zero funciona. O resgate é real para quem tem carteira pós-2012 com frase semente guardada. Mas a tecnologia chegou no momento errado para os donos originais, e nem o ZK-proof mais rápido do mundo muda esse fato.
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