Mercado Crypto

Fim do POAP, o crachá que provava presença nos eventos crypto

Depois de mais de cinco anos transformando presença em registro permanente na rede, o Proof of Attendance Protocol, o POAP, confirmou o encerramento das operações. A cofundadora Isabel Gonzalez anunciou o fim, movimento que jogou o projeto para a lista de nomes queridos do ecossistema que não conseguiram virar negócio, mesmo com milhões de crachás cunhados e uma legião de colecionadores fiéis.

Milhões de crachás cunhados, uma cultura inteira criada ao redor deles, e nenhum modelo que se sustentasse sozinho.

A mecânica era simples e cativava. Bastava escanear um código QR em um evento, conferência, hackathon ou sala de aula para receber um crachá único, um token ERC-721 gravado na rede, que registrava para sempre aquele “eu estive lá”. A carteira cheia de crachás virou uma espécie de currículo digital na rede, uma memória coletiva dos encontros da comunidade, e colecionar POAPs chegou a funcionar como um passaporte não oficial dos eventos mais importantes do calendário crypto.

O POAP virou cultura antes de virar produto.

A história começou antes de existir empresa. Em 2019, no hackathon ETHDenver, cerca de cem crachás ERC-721 foram criados e distribuídos aos participantes. O conceito pegou, e em 2021 o projeto ganhou forma jurídica e operação dedicada, depois de passar pela xDai, hoje Gnosis Chain, para baratear as cunhagens.

O crachá que virou cultura

A lista de clientes mostrava alcance. Coinbase e American Express, WMG e Bayer, além de dezenas de milhares de emissores, usaram a plataforma para criar lembranças digitais dos próprios eventos. Até marcos do Ethereum ganharam crachás especiais, como o The Merge, a transição da rede para a prova de participação, e quem participou daquele momento histórico guardou a prova na carteira.

Até o The Merge virou crachá.

Os usuários deram amor ao POAP. O dinheiro não entrou na mesma proporção.

Por que o fim chegou

“Os ciclos de financiamento e as dinâmicas de distribuição do crypto tornaram difícil construir uma empresa sustentável sem canibalizar o ethos que fazia o POAP significar alguma coisa”, disse Gonzalez. A frase resume o dilema de quase todo projeto de infraestrutura cultural da web3, aplaudido por quem usa e esquecido por quem financia.

O próprio time reconhecia o tamanho do nicho. A plataforma encontrou um grupo fiel que a usava com cuidado, mas nunca expandiu muito além dele. Em 2023, o POAP passou a cobrar clientes comerciais, encerrando anos de cunhagem gratuita, em uma tentativa de financiar a operação que não deu tração suficiente.

O nicho existia de verdade. O modelo de negócio, porém, nunca acompanhou.

A onda de despedidas não é exclusividade do POAP. Leap Wallet e Zapper encerraram operações nos últimos meses, e até a BitMEX, criadora dos contratos perpétuos, anunciou o fim depois de onze anos. Projetos com base ativa de usuários vêm citando o mercado fraco e a dificuldade de levantar capital novo, e o encerramento da POAP Inc. entra na mesma lista, com um agravante próprio de quem vivia de cultura em vez de trading.

O mercado apertou para quem não era exchange nem protocolo de lucro imediato.

O que fica é o registro. Os crachás já cunhados continuam na rede, acessíveis e negociáveis em plataformas como OpenSea e Rarible, e desde 16 de março novos emissores deixaram de entrar na plataforma, que opera em modo de manutenção para quem já usava os serviços. Os contratos inteligentes seguem funcionando na blockchain, e nada do que foi emitido ao longo dos anos desaparece com a empresa.

A promessa era bonita, transformar presença em memória permanente, e ela se cumpre no que já foi gravado. O que se encerra é a empresa por trás do sonho, enquanto os tokens seguem vivos na blockchain, independentes do destino da companhia que os criou.

Presença vira memória. Memória não virou receita.

Para quem colecionou crachás durante anos, o fim não apaga o que cada crachá registra. O experimento mostrou que dá para criar demanda e comunidade com um produto simples, e também que isso, sozinho, não sustenta uma companhia, porque o valor que os usuários sentiam não se convertia em pagamento recorrente.

O POAP mostrou que o crachá tinha valor afetivo. Faltou provar que tinha valor de mercado, e essa conta foi paga por mais um nome da cultura crypto que o mercado de baixa levou junto, deixando nos exploradores de blocos o museu silencioso do que a comunidade construiu.

⚠️ Aviso importante

As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.

Compartilhar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *