Bitcoin

BIP-110 à prova no fim de semana com apoio quase zero dos mineradores

O bitcoin encara neste fim de semana um teste raro, em que um pequeno grupo de nodes se prepara para rejeitar blocos produzidos por quase toda a rede de mineração. O BIP-110, proposta controversa que limita temporariamente o quanto de dados não-pagamento pode ser gravado na blockchain, chega ao período de sinalização mandatória previsto para domingo, e a proximidade da data transformou a discussão sobre a proposta em um dos temas centrais do debate sobre o futuro da rede.

Se a ativação se confirmar, ela acontece no bloco 965.664, cerca de quatro semanas depois, e a rede estava a 133 blocos do marco que abre a janela quando esta matéria foi escrita.

O percentual de apoio público dos pools é pequeno demais para o padrão de uma atualização de sucesso. A sinalização gira em torno de 2,6%, e o limite comum de 55% já está fora de alcance. No papel, o BIP-110 parece encerrado.

Se fosse uma votação da comunidade, o placar seria avassalador, e a margem seria grande demais para qualquer leitura otimista.

Para quem defende a proposta, porém, esse número não diz quase nada. O BIP-110 é um soft fork ativado por usuários, e não uma votação de mineradores. Os nodes rodam o software do bitcoin e verificam transações e blocos de forma independente, rejeitando o que consideram inválido. Os mineradores criam os blocos, mas são os nodes que decidem se aceitam, e é essa distinção que sustenta a tese central da proposta.

A lógica de um soft fork ativado por usuários

O BIP-110 foi desenhado para endurecer temporariamente as regras de consenso e tornar impraticáveis as inscrições usadas por Ordinals e Runes, que os apoiadores veem como uso da rede para dados não-financeiros que consome espaço de bloco e encarece a operação.

Quando a rede chegar ao bloco 961.632, os nodes que rodam o software do BIP-110 começarão a rejeitar blocos que não sinalizem, mesmo que o restante da rede os aceite. Se parte dos mineradores seguir sinalizando enquanto os demais mineram normalmente, duas ramificações podem emergir, e a do BIP-110 tende a começar pequena na disputa pelo hash rate, com apenas uma fração da força de mineração desde o início.

O SegWit é esse precedente, ativado em 2017 contra a resistência dos mineradores.

A cautela chegou às exchanges. Algumas casas de negociação exclusivas de bitcoin planejam pausar temporariamente depósitos e saques na janela de ativação, um cuidado que reflete a leitura de que o consenso não é definido apenas pelo hash rate ou pela contagem de nodes, mas pela coordenação entre mineradores, exchanges e carteiras.

Entre nomes influentes fora da mineração, o apoio é escasso. Michael Saylor e Adam Back manifestaram oposição à proposta. Para os críticos, a maior força do bitcoin é o limite altíssimo para mudar as regras de consenso.

Os defensores veem a questão por outro ângulo. Na leitura deles, o BIP-110 não reescreve o bitcoin, mas o restaura, e os usuários têm o direito e a responsabilidade de rejeitar mudanças de software que acreditam alterar o comportamento pretendido da rede. A divergência entre as duas visões expõe o tamanho da disputa, em um momento em que o mercado acompanha cada movimento em busca de sinais sobre o desfecho.

Apesar do resultado previsível de domingo, o teste do BIP-110 deve ecoar além da discussão sobre Ordinals ou spam. O próximo passo será medido em blocos, não em argumentos.

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