IA e Tecnologia

Ledger vê na IA a nova fronteira de ataques após dreno de US$ 116 mi

Um bug de firmware de 2021 deixou carteiras Coldcard com chaves tão fracas que uma máquina conseguia encontrá-las, e o resultado foi o dreno de US$ 116 milhões em bitcoin. Para o executivo de segurança da Ledger, a leitura certa aponta a inteligência artificial como nova fronteira de ataques, sem condenar a autocustódia.

O defeito trocou a fonte de aleatoriedade do aparelho por um gerador de números rodando em software, e a seed passou a nascer com pouca entropia. Com 40 a 72 bits, o espaço de chaves ficou pequeno demais para resistir a uma varredura automatizada. A plataforma TRM Labs contabilizou cerca de 1.816 BTC drenados de mais de 5.200 endereços em quatro ondas desde 30 de julho, incluindo 1.082 BTC na primeira, em 41 minutos.

A Ledger não foi afetada, e o motivo importa.

Na Ledger, a entropia nasce no próprio chip do aparelho, um componente certificado sem atalho por software, e Rogers resume o espaço de endereços resultante como o número 3 seguido de 67 zeros. A companhia passou por situação parecida em 2022, quando encontrou um defeito semelhante no Trust Wallet e seguiu o protocolo de divulgação responsável para alertar os donos dos fundos.

Rogers listou três frentes em que a IA mudou o jogo dos ataques.

O que a IA mudou nos ataques

A mudança mais visível está na capacidade de ataque. Com IA, encontrar brechas deixou de exigir meses de trabalho manual, e Rogers lembra que o mesmo conjunto de ferramentas usado para vasculhar carteiras serve para qualquer alvo, como os ataques contra o sistema de água dos Estados Unidos. Depois vem o volume de código. Com a IA ajudando a programar, as empresas entregam versões novas em semanas, e cada linha extra abre mais uma porta para quem quer invadir.

A frente mais nova é a dos agentes. Dentro das empresas, sistemas autônomos já circulam com acesso a senhas de email, Slack e credenciais, e cada acesso vira um alvo em potencial. Na leitura de Rogers, o Coldcard foi apenas o primeiro sintoma de uma crise maior, e a mira final não será uma carteira de hardware.

A ameaça dos agentes

Esse alerta já existia antes do dreno.

No fim do ano passado, Rogers já alertava que entregar senhas, dados de cartão e identidade a agentes autônomos criaria um risco fora de controle. A advertência foi recebida com ceticismo até os primeiros incidentes aparecerem, e o caso confirmou o que ele previa.

É a mesma lógica que rege uma wallet, na visão de Rogers.

A companhia já tem ferramentas para agentes movimentarem uma carteira sem acesso direto às chaves, uma arquitetura em que a proposta nasce no agente, a assinatura fica com o humano e o hardware dita o limite.

Os casos reais já começaram a aparecer.

Em maio, um token enviado de graça para uma carteira ligada ao agente Grok, na rede Base, veio com permissões escondidas que liberavam transferências. Uma resposta pública com mensagem cifrada em código Morse convenceu o sistema a mandar 3 bilhões de tokens DRB, cerca de US$ 174 mil, em um movimento único, e o preço do ativo despencou quase 40% na sequência. Em fevereiro, o agente Owockibot, da equipe do Gitcoin, vazou as próprias chaves em mais de um lugar mesmo com ordem expressa de nunca revelá-las, e o prejuízo ficou em US$ 2.100 porque a wallet tinha saldo pequeno de propósito.

O Coldcard virou o exemplo do que acontece quando o acaso é fraco e máquinas aprendem a varrer o espaço de chaves. A era dos agentes vai exigir que cada acesso seja autorizado pelo dono dos fundos, com a decisão sempre passando por uma confirmação humana, porque o próximo alvo pode ser uma conta com permissões demais.

⚠️ Aviso importante

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