IA e Tecnologia

Relatório da Grayscale aponta IA como motor de demanda por privacidade

A Grayscale Research publicou em 31 de agosto um relatório que coloca a inteligência artificial como a próxima ameaça à privacidade financeira e aponta o Zcash como uma das respostas possíveis. O estudo, assinado por Zach Pandl, chefe de pesquisa da gestora, argumenta que a IA torna mais barato e mais eficiente analisar a atividade em blockchains públicas e cruzar endereços pseudônimos com informações coletadas fora da rede.

A tese da Grayscale sobre a IA

A tese parte de um padrão histórico. A digitalização dos registros nos anos 1970 e a ascensão da internet nos anos 1990 alteraram a forma como dados financeiros são coletados. A IA seria a terceira onda do mesmo processo.

A preocupação central é que a IA amplia a capacidade de vigilância sobre a atividade on-chain. Endereços de carteira são pseudônimos, mas podem ser associados a pessoas por registros de exchanges, padrões de comportamento e dados externos. A automação torna essa ligação mais barata e mais abrangente, e o público que acompanha o setor passa a ter mais razões para questionar o que fica exposto.

Como o Zcash protege a privacidade

É aí que o Zcash entra. A rede permite que o usuário escolha entre transações transparentes e transações shielded, nas quais a transferência é validada por provas de conhecimento zero, sem que remetente, destinatário ou valor fiquem visíveis. A privacidade deixa de depender de esconder um endereço e passa a ser uma propriedade do protocolo. O relatório também lembra que a rede permite a divulgação seletiva de informações, uma forma de atender a exigências de compliance sem abrir mão da proteção.

O vínculo da gestora com o ativo é direto. A Grayscale opera o Grayscale Zcash Trust, convertido em ETF à vista que estreou na NYSE Arca em 25 de agosto sob o ticker ZCSH. É o primeiro produto listado em bolsa nos Estados Unidos a dar acesso direto a uma criptomoeda voltada para privacidade.

O ZEC negociou ao redor de US$ 860 no fechamento do mês, com capitalização de aproximadamente US$ 14,5 bilhões e a 11ª posição entre as maiores criptomoedas. Em trinta dias, o ganho acumulado foi de cerca de 86%, parte de uma alta de quase 19 vezes em doze meses.

A gestora cita dados de julho para sustentar que a infraestrutura de privacidade já está em uso. Cerca de 4,2 milhões de ZEC, algo como 25% do suprimento em circulação, estavam depositados nas pools shielded em 20 de julho, e as transações com proteção respondiam por cerca de 90% da contagem total da rede naquela data.

Os números de transações, contudo, merecem uma ressalva. Dados on-chain independentes sugerem uma proporção menor de transferências shielded em relação ao total, o que indica que a porcentagem apontada pela gestora pode refletir uma métrica específica. O que os dados de cadeia confirmam é a ordem de grandeza do valor em custódia nas pools privadas, superior a 4 milhões de ZEC.

O Zcash segue pequeno diante do Bitcoin. O ZEC vale menos de 1% da capitalização do BTC, e a Grayscale estima que o BTC concentra cerca de 93% da categoria de moedas em seu índice setorial.

Em um cenário hipotético, a Grayscale calcula que a ZEC poderia ser avaliada em mais de US$ 4 mil se a capitalização da rede alcançasse 5% da do BTC. O número é apresentado como projeção de modelo, sem caráter de previsão de preço.

Riscos que continuam no caminho

A aposta na privacidade não elimina os problemas que o Zcash enfrenta. Exchanges e custodiantes sujeitos a regras de combate à lavagem de dinheiro precisam monitorar transações, e o acesso do ativo a esse tipo de infraestrutura depende da capacidade de divulgação seletiva de informações quando exigida por lei. O tratamento regulatório varia entre jurisdições, e alguns mercados restringem a operação de moedas de privacidade.

No plano técnico, a rede passou por sucessivas atualizações para tornar as transações protegidas mais práticas. O protocolo Sapling reduziu o custo computacional das provas, o Orchard eliminou a necessidade de configuração confiável e o Ironwood trouxe uma nova pool shielded. Esses avanços não garantem que o uso dos recursos de privacidade se torne majoritário.

O interesse institucional também cresceu. A Cypherpunk Technologies, listada na Nasdaq, comprou uma frota de mineração de Zcash que pertencia ao Winklevoss Capital. O negócio foi avaliado em US$ 33,33 milhões. A operação responde por cerca de 18% do poder computacional total da rede.

Para a Grayscale, a IA e as tecnologias de privacidade caminham em direções opostas, com a primeira facilitando a análise de dados e as segundas limitando o que fica exposto. Essa tensão pode aumentar a atenção sobre ativos como o Zcash, mas o interesse não se traduz automaticamente em adoção. O uso das transações protegidas depende de carteiras acessíveis, do suporte de exchanges e das decisões de reguladores.

O que o relatório entrega é uma tese de longo prazo sobre um problema que tende a crescer. Se a IA vai elevar o valor da privacidade no crypto, e se o Zcash será o ativo escolhido para capturar essa demanda, são questões que o próprio mercado vai responder.

⚠️ Aviso importante

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