Setembro vermelho do Bitcoin tem 8 quedas em 13 anos de história
O mês que começa agora é, por estatística, o mais hostil do calendário para o bitcoin. Entre 2013 e 2025, a criptomoeda fechou setembro no vermelho em oito de treze anos, com queda média de 3% no período. A perda mediana chega a 3,1%, e nos anos negativos o recuo médio quase triplica, para 8,2%. Nenhum outro mês do mercado crypto combina média e mediana negativas ao mesmo tempo.
O apelido que os traders dão ao fenômeno é direto, setembro vermelho, e a ressalva imediata é o tamanho da amostra.
Treze anos são pouco mais de uma década, um recorte pequeno para o padrão de qualquer mercado. Ainda assim, a assimetria contra setembro é a mais acentuada de todo o calendário. Nos demais onze meses do mesmo período, a média de retorno do bitcoin fica em 11,4%, enquanto setembro acumula a pior média e a pior mediana entre os doze. O ano em que o padrão mais dói foi 2014, com desabamento de 18,5%, seguido por 2019, quando o ativo perdeu 13,5%.

A sequência recente, no entanto, desmente a fama. Setembro terminou no positivo em 2023, 2024 e 2025, com ganhos de 4%, 7,4% e 5,4%. Foram os setembros em que o banco central americano, o Fed, cortava juros, primeiro 50 pontos-base em 2024, o primeiro corte em mais de quatro anos, depois 25 pontos-base em 2025.
O contracaso é 2022, quando o Fed elevou a taxa em 75 pontos-base na reunião de setembro e o bitcoin recuou 3,1% no mês.
Por que setembro pune o bitcoin
A relação entre juros e preço do bitcoin tem base mecânica. O ativo não paga juro, dividendos ou rendimentos por si próprio, e seu valor depende inteiramente da demanda futura, compradores decididos a pagar mais do que a cotação atual por fatias da rede. Quando a taxa básica cai, o custo de oportunidade de manter um ativo sem rendimento diminui e o capital tolerante a risco volta a circular. Quando a taxa sobe, acontece o contrário, a liquidez que sustenta os mercados de risco se retrai e o bitcoin, sem lastro tangível, sente a pressão na mesma dose.
A história se repete no mercado de ações. O S&P 500, principal índice do mercado acionário americano, caiu em 22 dos 41 setembros desde 1985, com retorno médio de 0,9% negativo, a pior marca entre os doze meses. Agosto, o segundo pior, fica em 0,2% negativo. O mês de setembro é o único no longo prazo em que a média do principal indicador da economia mais rica do mundo mergulha no vermelho ano após ano, independente do ciclo de juros.
As explicações candidatas são discutíveis entre si. A mais citada é o ajuste de carteiras institucionais no terceiro trimestre, quando fundos encerram o ano fiscal e vendem posições perdedoras. Há também quem veja na fama do mês uma profecia que se autorrealiza, com operadores se posicionando na defensiva por antecipação.
O calendário de 2026 adiciona um ingrediente que não existia nos dois anos anteriores. O comitê de política monetária do Fed se reúne nos dias 15 e 16 de setembro, na reunião trimestral que traz as projeções econômicas atualizadas e o gráfico de pontos, pelo qual cada membro registra sua previsão para os juros. A taxa básica está estacionada em 3,75% desde dezembro, e a reunião de julho terminou com votação dividida em nove a três, com três membros defendendo alta imediata de 0,25 ponto.
A inflação medida pelo núcleo do PCE, o indicador de inflação preferido do banco central, segue em 3,34% em doze meses, bem acima da meta de 2%.
O cenário, portanto, é o oposto do que sustentou os dois setembros positivos anteriores. Em 2024 e 2025 o Fed chegou a setembro cortando juros. Em 2026 o banco central chega ao mês parado e com parte do comitê pedindo aperto adicional.
O bitcoin, por sua vez, encerrou agosto com alta de 25%, o melhor mês do ano e o segundo de ganho de dois dígitos em 2026, depois de abril, mas segue 10% negativo no acumulado. O preço opera perto dos US$ 77 mil, a 38% do recorde histórico de US$ 124,8 mil, de outubro do ano passado. Um recuo típico dos 8% dos anos negativos devolveria a cotação à casa dos US$ 71 mil e apagaria boa parte do ganho recente.
O destino do mês costuma se decidir cedo. Nos treze anos analisados, a primeira semana de setembro acumula queda média de 2,2%, e a terceira é a pior de todas, com 3,1% negativos. Em 2021 o exemplo é didático, o bitcoin subiu 11,7% até o dia 6 de setembro e fechou o mês com perda de 7,2%.
A defesa dos otimistas é direta, três setembros positivos seguidos e uma amostra pequena demais para virar regra.
Essa leitura tem base, porque condicionar decisões de alocação a um padrão de treze anos é estatisticamente frágil. Fluxos de fundos listados, regulação e liquidez global pesam mais do que qualquer calendário, e o próprio fato de três altas consecutivas terem ocorrido quando o Fed cortava juros reforça que o motor do movimento é a política monetária, e não o mês em si.
O que sobra é um cenário com gatilho claro. Enquanto o Fed não sinalizar retomada dos cortes na reunião de 15 e 16, o histórico de setembro pesa contra o mercado crypto, e qualquer fraqueza nas duas primeiras semanas tende a encontrar eco estatístico. Se o comitê surpreender com um corte, o padrão de 2024 e 2025 mostra o caminho que o ativo pode seguir. A data que separa os dois caminhos está marcada, e pela primeira vez em três anos ela chega sem a simpatia do banco central.
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