Regulação do BC impulsiona bancos a ampliarem criptoativos no Brasil
O mercado de criptoativos no Brasil movimentou R$ 505,5 bilhões em 2025. As empresas responderam por R$ 497 bilhões, 98,3% do total. As pessoas físicas ficaram com os outros 1,7%. Os números da Receita Federal desenham um cenário onde o varejo correu atrás de plataformas próprias enquanto os bancos assistiam de longe. Esse movimento começou a mudar nos últimos meses. O Banco Central publicou em 10 de novembro de 2025 as resoluções 519, 520 e 521, que estabeleceram regras claras para prestadoras de serviços de ativos virtuais. O prazo final para quem já operava no Brasil é 30 de outubro de 2026. Sem licença, as empresas terão de encerrar atividades em até 90 dias. A regulação fechou o cerco sobre cerca de 120 plataformas que funcionavam sem supervisão. Os bancos esperaram a caneta do BC antes de se movimentar.
Até março de 2026, nenhum dos grandes bancos mantinha posições próprias de criptoativos em seus balanços. Tudo o que existe hoje é intermediação e custódia para clientes. O Itaú oferece 15 criptoativos em seu aplicativo de investimentos. A lista cresceu em 2025 com a adição de três tokens. São Solana, XRP e a stablecoin USDC, que completa a carteira com uma moeda estável lastreada em dólar.
O Nubank foi mais longe e lista 28 ativos digitais em sua plataforma dedicada. São 6,6 milhões de usuários que compraram, venderam ou armazenaram criptoativos direto no aplicativo da fintech. O número de transações cresceu 250% no último semestre, puxado principalmente por investidores mais jovens. O Banco do Brasil iniciou a venda direta de Bitcoin e Ethereum em janeiro de 2026. As transações somaram mais de R$ 11 milhões. O valor é pequeno para o porte do banco, mas sinaliza a direção que a instituição quer seguir. Empresas concentram a quase totalidade do volume.
A Receita Federal de 2025 bateu um recorde, R$ 505,5 bilhões movimentados em criptoativos no país. O número é mais de cinco vezes o registrado em 2020, quando a marca ficou em R$ 94,9 bilhões. O marco regulatório de 2022, a Lei nº 14.478, atribuiu ao Banco Central a autoridade sobre o setor. Mas o que existia era um arcabouço genérico, e os bancos esperaram as resoluções detalhadas antes de se movimentar. A resolução 521 trata de um ponto sensível. Qualquer compra ou troca de stablecoin lastreada em dólar passa a ser considerada operação de câmbio. A mudança coloca as moedas digitais pareadas com o dólar no mesmo nível de exigência de remessas internacionais de dinheiro. Para o Banco Central, o Brasil deu o passo que faltava para ter um sistema financeiro digital integrado e supervisionado.
Cerca de 120 empresas operavam com criptoativos no país sem regulação, e a maioria ainda protocolava o pedido de autorização dentro do prazo. As novas regras exigem autorização do Banco Central para operar, capital mínimo que varia entre R$ 10,8 milhões e R$ 37,2 milhões, governança formal e segregação patrimonial entre os ativos dos clientes e os da instituição. Qualquer empresa que permita comprar, vender, enviar ou custodiar criptoativos agora precisa de licença.
O Safra fez a jogada mais agressiva do setor. Em setembro de 2025, o banco lançou sua própria stablecoin, o Safra Dólar, com emissão, custódia e liquidação mantidas internamente. O produto permite ao cliente se proteger da variação cambial americana sem precisar de conta internacional, um atrativo para o público de alta renda que é o foco da instituição.
O movimento do Safra repete uma tendência global, os bancos estão construindo suas próprias infraestruturas de stablecoin em vez de deixar o negócio para as empresas nativas do universo cripto.
A corrida dos bancos por demanda regulada
Carlos Akira Sato, co-fundador da consultoria Syscapital, avaliou que os bancos brasileiros costumam ser conservadores com novos mercados. Normas bem definidas deram a confiança que faltava para oferecer seus produtos. As instituições financeiras tradicionais estão respondendo a uma demanda real do cliente brasileiro por ativos digitais.
A tendência global dos bancos com stablecoins próprias
Os números de mercado mostram que a demanda existe e cresce com ou sem banco. O sistema financeiro regulado agora consegue oferecer um produto que antes ficava restrito a plataformas não supervisionadas. O próximo capítulo depende da aplicação das regras a partir de 30 de outubro, quando as empresas que não pedirem autorização terão de encerrar atividades em até 90 dias.
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