App de remessas vira disputa sobre o rumo do bitcoin em El Salvador
El Salvador contestou nos últimos dias uma reportagem da imprensa econômica dos Estados Unidos que descreveu o país como em processo de abandono do bitcoin. A reportagem usou como principal indício um aplicativo de remessas lançado no dia 29 de setembro, que leva dinheiro dos Estados Unidos para o país e liquida as transferências em dólar digital. A resposta oficial veio em duas partes. Uma nota curta da Oficina Nacional do Bitcoin e uma entrevista ao vivo em que a diretora do órgão tratou o relato como notícia falsa.
O episódio mexe com a marca que o país construiu. A lei do bitcoin completou cinco anos em setembro. Desde então, o país trata a adoção como parte da própria imagem.
Um app de tarifa única para as remessas
O aplicativo se chama Sivar e foi anunciado pelo governo em parceria com a Modveon, empresa de Palo Alto, na Califórnia, criada no ano passado, com US$ 10 milhões captados de investidores que incluem a Coinbase Ventures, braço de investimento da Coinbase. O contrato tem prazo de cinco anos e, conforme o comunicado do lançamento, foi assinado com a AAB, a agência que administra o fundo de bitcoins do país.
O Sivar faz o que o bitcoin não conseguiu fazer por ali. A conta é aberta com verificação de identidade com documento oficial, o usuário entra em grupos formados pelo endereço onde mora e a transferência feita do exterior chega com tarifa única de US$ 2, seja qual for o valor enviado. A remessa é liquidada em uma stablecoin, tipo de ativo digital com preço atrelado ao dólar, na rede Base, da Coinbase. O aplicativo é gratuito e está disponível para iOS e Android.
As remessas são o ponto sensível dessa história. Cerca de US$ 9 bilhões chegaram ao país em 2025, quase tudo enviado por famílias salvadorenhas que vivem nos Estados Unidos, e perto de 1,6 milhão de pessoas dependem dessas transferências.
A negativa da Oficina Nacional do Bitcoin
O que dá força à leitura de abandono são os números do uso corrente. Um levantamento da Universidade Centro-Americana apontou que quase 92% dos moradores não tinham usado o bitcoin em 2024. Nos sete primeiros meses deste ano, as carteiras digitais responderam por US$ 41,11 milhões das remessas, dentro de um total de US$ 5,92 bilhões, ou 0,69%.
A Oficina Nacional do Bitcoin reagiu no mesmo dia. Em uma publicação curta, afirmou que o Estado não pretende criar nem administrar carteiras de bitcoin, de cripto ou de stablecoin. Acrescentou que, com a venda da Chivo a um comprador privado, a participação do Estado na operação terminou.
A Chivo foi o símbolo dos primeiros anos, lançada em 2021 com um crédito de US$ 30 para quem abrisse conta. Depois da onda inicial de cadastros, boa parte dos usuários deixou o aplicativo de lado.
No vídeo que circula desde o dia 30, Stacy Herbert, que dirige a oficina, disse que El Salvador segue sendo um país só de bitcoin e atribuiu a confusão a uma agência municipal, que teria criado um aplicativo comunitário por conta própria. Max Keiser, codiretor, citou o que chama de base do modelo local, a aposta no bitcoin, o imposto zero para empresas de tecnologia e a área de segurança pública. O órgão acrescenta a essa lista 80 mil servidores públicos treinados e aulas de educação financeira nas escolas públicas.
Já o anúncio do governo atribui esse contrato à AAB, a agência que administra o fundo de bitcoins do país. O aplicativo em dólar digital e a reserva em bitcoin passam pela mesma estrutura.
A reserva e a origem das moedas
A reserva seguia em 7.790 bitcoins no fim de setembro, com 30 moedas somadas nos 30 dias anteriores, conforme o painel oficial do órgão. Ao preço de US$ 83,9 mil por moeda nesta quinta-feira, o estoque vale cerca de US$ 653 milhões.
A origem dessas moedas é o capítulo mais confuso. Em 3 de setembro, o FMI informou que a acumulação registrada desde a primeira revisão do programa vinha de doações privadas, sem uso de recursos públicos, e disse não esperar novas adições além das já documentadas. A oficina continuou a publicar compras diárias de um bitcoin. Os dois relatos não se encaixam.
O histórico ajuda a entender a desconfiança. O bitcoin virou moeda de curso legal em setembro de 2021. Em janeiro de 2025, o parlamento emendou a lei para tornar a aceitação voluntária e proibir o pagamento de impostos em bitcoins. A mudança fez parte do acordo de 1,4 bilhão de dólares com o FMI, um programa de 40 meses aprovado em fevereiro daquele ano, que limitou as compras do setor público.
Semanas antes da polêmica, Nayib Bukele já tinha negado que a reserva do país tivesse passado a uma empresa privada. Na versão dele, o que trocou de dono foram as ações da Chivo.
Nos dias 11 e 12 de novembro, a Oficina Nacional do Bitcoin realiza a segunda edição do Bitcoin Histórico, no Palácio Nacional, em San Salvador. A programação promete 21 mil pupusas gratuitas na Praça Gerardo Barrios, número escolhido em referência ao teto de 21 milhões de bitcoins.
⚠️ Aviso importante
As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.