A S&P Global passa a avaliar risco nos US$ 10 bilhões emprestados por cofres em blockchain
A agência de ratings S&P Global Ratings, que classifica títulos de dívida e empresas, anunciou na segunda-feira um método para medir o risco dos cofres de empréstimo em blockchain. O volume depositado nesses cofres chegou a US$ 10 bilhões em setembro, ante US$ 1,5 bilhão dois anos antes. A agência classifica o risco de cada veículo, e não o rendimento que ele promete.
A escolha das palavras no comunicado é a parte que importa. O VRA, o nome do método, não se confunde com uma classificação de crédito e deixa de fora a discussão de quanto o cofre rende. O que ele mede é a chance de o valor do depositante ser perdido.
O que a ferramenta olha
São seis fatores de risco, e é sobre eles que o VRA se organiza. A qualidade de crédito da carteira emprestada, o descasamento entre o prazo do dinheiro que entra e do que sai, o risco de quem administra o cofre, o risco do blockchain em que ele roda, o risco do protocolo empregado e o risco de segurança e de governança do próprio cofre.
Cada avaliação sai em uma escala de letras. As primeiras avaliações vão aparecer em anúncios futuros, ou seja, nenhum cofre foi avaliado até agora.
James Wiemken, diretor executivo assistente e responsável pelos serviços globais de avaliação de risco da S&P, disse que essa classe de veículos representa um passo à frente no crédito dentro de blockchain. O problema, na visão dele, é a complexidade e o padrão variável de divulgação de um mercado recente.
O que é um cofre de empréstimo
Um cofre é um contrato inteligente que junta o dinheiro de vários depositantes e o empresta seguindo uma estratégia definida. Funciona como um fundo de renda fixa com a carteira administrada por código. Quem deposita recebe um token de participação que representa a fatia proporcional no acervo e nos rendimentos acumulados.
A estratégia pode ser automatizada por completo, com o código distribuindo o dinheiro conforme parâmetros definidos pelo administrador, ou gerida por pessoas. A S&P observa que o desenho se aproxima do que fazem fundos de money market, fundos de crédito privado, fundos de participação e fundos especulativos, só que dentro de uma blockchain.
A escala dos cofres de crédito ainda é pequena perto do mercado de crédito em blockchain como todo. O Aave tinha US$ 19,7 bilhões de valor travado, alta de US$ 18,01 bilhões em 30 dias. O Morpho Blue tinha US$ 11,46 bilhões, contra US$ 9,7 bilhões no mês anterior. Os cofres de que fala a S&P são uma fatia disso.
Quem já fez isso antes
A S&P não chegou ao mercado de cripto agora. Em setembro, a companhia fechou um acordo para comprar a OpenZeppelin, que é o padrão de segurança usado na maior parte das finanças em blockchain. Ainda no mesmo mês, liderou um investimento na Kaiko, provedora independente de dados de mercado cripto.
O histórico recente tem os mesmos nomes. A agência lançou as primeiras avaliações de estabilidade de stablecoins, deu a primeira classificação de crédito a um protocolo de finanças descentralizadas, o Sky Protocol, e avaliou a Ledn, a primeira operação de finanças estruturadas com lastro em bitcoin a receber nota. Com a S&P DJI e a Kaiko, tokenizou o índice iBoxx de títulos do Tesouro dos Estados Unidos.
O alcance da empresa agora vai de nota de crédito a participação societária na camada de segurança do próprio mercado que ela pretende avaliar. Isso é o dado novo do anúncio.
O que muda para quem deposita
O número de US$ 10 bilhões sozinho diz que o produto já existe com volume de carteira grande. Quem entra ainda enfrenta um problema prático. Os cofres publicam o que conseguem ver, que é endereço, saldo e posição. O que fica escuro é a estratégia por trás e o risco dela. É exatamente essa camada que a S&P diz analisar.
A ferramenta ainda não classificou ninguém. Enquanto isso, os cofres seguem competindo com os grandes protocolos de crédito em blockchain por depositante, e a diferença de risco entre eles continua sendo argumento de venda.
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