A Solana Foundation quer ser a base da IA, e o texto publicado para sustentar isso é tese, não lançamento
A Solana Foundation publicou em 2 de outubro um documento longo sobre o papel que a rede pretende ter na inteligência artificial. A frase que abre o texto define a Solana como base de democratização dessa tecnologia. São quatro capítulos, o primeiro deles de processamento, seguido por modelos, coordenação e aplicações ao consumidor. Não há produto novo ali dentro, nem data, nem nome de código. É uma declaração de direção publicada por uma fundação sem fins lucrativos sediada em Zug, na Suíça.
O argumento central é curto. Agentes de IA já são atores econômicos, ou seja, software que toma decisões de compra, mas boa parte da infraestrutura que existe foi erguida para atender gente e instituições. Banco exige cadastro e verificação de identidade, cartão exige gente do outro lado, e nuvem exige contrato empresarial. Um programa de computador não abre conta em banco, não passa no teste anti-bot para conseguir chave de API e não assina contrato de centenas de milhares de dólares. A tese é que a Solana resolve isso porque a rede é rápida, barata e programável, e cada uma dessas qualidades remove uma trava específica.
A trava mais concreta é o pagamento
A parte mais concreta do documento é a do pagamento, porque é a mais perto de funcionar. O protocolo x402 ressuscita um código de status HTTP que estava esquecido desde a criação da web, o 402, que significa pagamento necessário. Quem pede um recurso que custa dinheiro recebe de volta um 402 seguido das instruções de como pagar. O agente então liquida a conta em stablecoins e repete a tentativa, levando o comprovante junto, tudo em uma ida e volta automática. Sem conta, sem chave de API, sem assinatura mensal.
Em 3 de setembro, um mês antes do documento, a mesma fundação já tinha publicado outra coisa na mesma linha, os canais de pagamento. A ideia resolve o problema que sobra quando o pagamento por chamada funciona bem demais. Se um agente faz centenas de chamadas baratas em sequência, pagar cada uma separadamente na cadeia custa mais em taxa do que vale a compra. O canal de pagamento funciona como uma conta de bar: o agente deposita um teto de dinheiro uma vez, gasta contra esse teto ao longo do uso e liquida uma só vez no final. O trabalho na rede se resume a abrir o canal e liquidar, não importa quantas chamadas acontecem no meio.
É a peça mais concreta da tese porque tem número. Um milhão de pagamentos por segundo é a capacidade citada para o canal. A taxa é de menos de um centavo por transação, o que faz pagamento por requisição valer economicamente para compras pequenas.
A trava mais difícil é a computação
Computação é a camada que o documento trata primeiro, e a mais ambiciosa. A proposta é tokenizar hora de GPU e capacidade de inferência, para que quem compra agora e quem vende depois possam se encontrar em mercado aberto, com preço descoberto. O documento admite que a maioria das blockchains é lenta demais para isso e afirma que a Solana é rápida o suficiente para rodar livro de ordens completo dentro da própria cadeia, a mesma estrutura de uma bolsa.
A outra metade da camada de computação é inferência verificável. O problema, segundo o texto, é que quem usa um serviço de inferência hospedado precisa confiar numa política de privacidade escrita em algum lugar, e essa política pode não ser cumprida. A saída proposta é o ambiente de execução confiável, em que um par de chaves é gerado dentro de um enclave seguro onde a chave privada não consegue sair, nem pelo dono da máquina. A chave pública é publicada na cadeia acompanhada de um atestado de hardware. O usuário cifra o pedido para essa chave, o texto claro só existe dentro do enclave, e o pagamento só é liberado se o atestado for válido. Confiar no fornecedor vira verificar o hardware.
É a parte mais defensável do documento, porque não depende da Solana ser rápida. É a mesma lógica do Zcash e das provas de conhecimento zero, que já existia antes e funciona em qualquer blockchain que aceite a prova. É também a que menos tem a ver com a tese da rede em si.
Treinar sem dinheiro e sem dono
O capítulo de modelos enfrenta um problema que a maioria do público não conhece. Treinar um modelo de fronteira exige um cluster gigante, com cabos curtos e muita memória, e essa é justamente a barreira de capital. A proposta é coordenar milhares de GPUs desencontradas pela internet aberta, o que levanta três perguntas que ninguém respondeu ainda: quem fez o trabalho, se foi feito direito e quem recebe.
A resposta proposta é usar a cadeia como árbitro, registrando participantes, distribuindo tarefa, verificando contribuição e pagando recompensa. A rede citada como exemplo é a Psyche, da Nous Research, que comprime o tráfego de gradientes o suficiente para rodar em conexão doméstica comum. O argumento do documento é que tentativas anteriores de computação voluntária falharam por falta de cola econômica, e que é isso que a blockchain resolve.
O documento também propõe usar a própria rede como conjunto de dados de treinamento. Cada compra, cada cotação, cada cancelamento e cada liquidação da Solana é público, com horário, e gratuito para ler. Um modelo de aprendizado por reforço pode aprender como se forma preço contra anos de fluxo de ordens real, em vez da aproximação de um simulador. É o dado mais valioso da finanças quantitativa, e em um livro público ele não existe como produto para ser licenciado.
O que o documento não diz
O documento não diz quanto de tudo isso já está rodando. Descreve o que a rede pode fazer, cita a Psyche como exemplo em andamento e menciona os canais de pagamento como primitiva já disponível, mas não traz número de agentes pagadores, volume transacionado no x402 nem participação de provedores de GPU no mercado tokenizado que ele propõe criar.
O documento é um mapa, não um lançamento. A Solana Foundation é uma entidade sem fins lucrativos que vive da narrativa e do ecossistema. Um documento que posiciona a rede em cinco frentes de IA serve a quem precisa convencer desenvolvedores a construir, investidores a financiar e empresas a integrar. Isso não torna o texto falso. Torna o texto parte da estratégia, e vale ler com esse filtro.
Os números que permitem medir a tese existem, e não são de uma alta. A Solana está em US$ 120,78, com capitalização de US$ 71 bilhões e volume diário de US$ 2,54 bilhões, em sétimo lugar entre as moedas. A moeda está 47,8% abaixo do preço de um ano atrás e 58,8% abaixo da máxima de US$ 293,31 alcançada em janeiro de 2025, e subiu 16,98% nos últimos trinta dias. O valor travado em protocolos DeFi na rede é de US$ 6,72 bilhões.
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