Rússia proíbe negociação direta de criptomoedas entre pessoas a partir de julho de 2027
Ninguém mais poderá trocar criptomoedas diretamente com outro indivíduo na Rússia a partir do dia 1º de julho de 2027. A regra anunciada pelo Banco Central em outubro obriga toda movimentação no país a passar por alguém licenciado. É mais um passo de Moscou para levar o mercado para dentro do sistema financeiro oficial.
O fim do P2P
Até meados de 2027, comprador e vendedor ainda podem negociar bitcoins, ethers ou stablecoins diretamente, sem corretora no meio. Depois de julho, toda transação entre pessoas físicas exigirá um intermediário autorizado pelo Banco Central, como bancos, corretoras e depositários digitais. A medida não surpreende quem acompanha a trajetória da regulação russa. Em agosto, nove casas de câmbio irregulares foram fechadas em Moscou sob acusação de lavagem de dinheiro ligada a golpes telefônicos. Em 4 de agosto de 2026, o presidente Vladimir Putin sancionou a Lei 282-FZ, que criou o marco legal para o comércio de criptomoedas no país. A lei entrou em vigor em 1º de setembro, e desde então as plataformas operam sob supervisão do Banco Central. A proibição de transferir fundos de contas reguladas para carteiras próprias veio junto.
Carteira fria fora do alcance
O bloqueio para investidores privados de sacar criptomoedas de contas reguladas para carteiras próprias, as chamadas carteiras frias ou de autocustódia, já é realidade. A regra publicada em outubro aprofunda a restrição. Apenas empresas que atuam no comércio exterior podem mover criptomoedas para carteiras fora do sistema de custódia. O investidor comum perde esse direito. Quem não é empresa precisa dar um passo extra. Transferir a moeda primeiro para um custodiante no exterior e só então para a carteira fria. Na prática, todo movimento passa a depender de infraestrutura regulada.
Limites para o varejo
A Lei 282-FZ separa o mercado em dois tipos de investidor. Os não qualificados, que formam a maioria dos russos, podem comprar até 300 mil rublos por ano com cada intermediário, cerca de 3.600 dólares pela cotação de 1º de outubro. Investidores qualificados não têm esse teto. A lógica é concentrar a atividade em quem pode assumir o risco. Só três ativos entram na lista de negociação pública. Bitcoin, Ether e USDT. A regra exige capitalização média acima de 5 trilhões de rublos, uns 60 bilhões de dólares, e volume médio diário acima de 1 trilhão de rublos. Nenhuma outra moeda atende aos três critérios ao mesmo tempo.
Os bancos no centro
O registro do Banco Central reúne 12 operadores autorizados, entre eles os bancos públicos Sberbank e VTB. A Sberbank, maior banco do país, recebeu aval em outubro para atuar na troca de criptomoedas e já constava no registro de depositários digitais. A instituição planeja abrir a negociação para todos os clientes em 1º de dezembro, testando operações com Bitcoin, Ether e USDT no próprio aplicativo. A própria Sberbank estimou que o volume regulado pode chegar a 46 bilhões de dólares no primeiro ano. O vice-presidente do banco, Stanislav Kuznetsov, afirmou que cerca de 900 casas de câmbio irregulares ainda operam no país, movimentando quase 300 bilhões de rublos desviados por golpistas no último ano.
O que muda
A regra não afeta o uso de criptomoedas em pagamentos internacionais. A Lei 282-FZ mantém a proibição de usar criptomoedas como meio de pagamento no país, mas libera as liquidações transfronteiriças. Moscou controla o ambiente interno sem abrir mão de operar no exterior. Nem todos acham que a regra vai funcionar. Samson Mow, da Jan3, disse que o comércio P2P resiste mais a restrições do que as plataformas centralizadas. Stepan Uherik, da SatoshiLabs, lembrou que proibir aplicativos de carteira não afeta carteiras físicas nem programas de desktop, que não dependem de lojas oficiais. Para o governo, a partir de julho de 2027 haverá um único caminho legal para negociar criptomoedas no país. Convencer o mercado paralelo a usá-lo é a parte que ainda não tem resposta.
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