No domingo da eleição, 78% do volume do Mercado Bitcoin veio de empresas
No domingo em que Lula foi eleito, com o câmbio fechado e a bolsa parada, as empresas brasileiras foram para as stablecoins. Contas corporativas responderam por 78% de tudo o que foi negociado no Mercado Bitcoin naquele dia, e o volume de USDT na plataforma subiu quase 800% em relação ao domingo anterior. Os dados são da própria corretora.
O horário explica o volume. O dólar à vista só voltou a ser negociado na manhã de segunda, enquanto USDT e USDC funcionam 24 horas, inclusive no fim de semana. Na noite de domingo, o dólar futuro marcou R$ 5,56, alta de cerca de 10% sobre o fechamento de sexta. Na manhã seguinte, o preço de compra das duas stablecoins batia R$ 5,54 em corretoras e bancos.
O mercado de bitcoin na corretora acompanhou o movimento, em escala ainda maior. O volume negociado subiu 865% na comparação com o domingo anterior, e o giro em USDT ficou mais de três vezes acima da média dos quatro domingos que antecederam a votação.
A corrida não ficou restrita a uma corretora. O Biscoint, que acompanha preços e volumes em dez plataformas, entre elas a Binance e o Mercado Bitcoin, registrou alta de 150% no volume de USDT contra o real naquele domingo. O volume de USDC subiu 318%.
Na segunda-feira, com o mercado tradicional aberto e em queda, o movimento continuou. Somados, USDT e USDC movimentaram R$ 1,84 bilhão nas plataformas monitoradas, ou US$ 350 milhões, 65% acima da semana anterior. O giro em bitcoin chegou a 1.336 BTC, mais de nove vezes o do domingo anterior. Na Binance, o par BTC/BRL cresceu 370%, enquanto o BTC/USDT global recuou 25%.
O real no centro do movimento
A disparada em reais diz mais sobre o real do que sobre o bitcoin. Na segunda-feira, o bitcoin subiu 9,4% frente à moeda brasileira e caiu 0,2% frente ao USDT. Quem comprou cripto naquele dia estava, na prática, trocando de moeda.
A base de clientes do Mercado Bitcoin ajuda a explicar o tamanho do movimento. Clientes corporativos costumam manter até 15% dos ativos na plataforma, segundo a corretora, e foram eles que puxaram o volume do domingo. O varejo respondeu pelos 22% restantes.
Pedro Fontes, analista do Mercado Bitcoin, escreveu que a eleição reforçou a tese de não depender só do real. Para ele, quando o câmbio aperta, USDT e USDC funcionam como uma dolarização simples do caixa, disponível fora do horário bancário e a partir de quantias pequenas.
O tombo dos ativos brasileiros veio no dia seguinte. Na segunda-feira, o Ibovespa caiu 14%, o pior dia desde março de 2020, e a B3 interrompeu as negociações duas vezes na abertura enquanto o dólar disparava.
Três semanas antes, o cenário tinha sido o oposto. Depois do primeiro turno, com Bolsonaro à frente, o Ibovespa subiu 7,7% e o dólar recuou mais de 4% frente ao real. A troca de expectativa sobre quem governaria o país mexeu com o preço das duas moedas. O bitcoin em dólar quase não se moveu.
Empresas que precisavam se proteger de uma desvalorização do real encontraram nas stablecoins uma forma de dolarizar o caixa fora do horário do câmbio. Na segunda-feira, com o mercado aberto, elas seguiram comprando.
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