Macro

A dívida do mundo vai passar de 100% do PIB e o Japão mostra a conta primeiro

O Fundo Monetário Internacional fechou a conta que os mercados vinham pagando desde fevereiro. A dívida pública de todos os países somados chegou a pouco menos de 94% do PIB do planeta em 2025 e deve superar 100% até 2030, patamar que só existiu logo depois da Segunda Guerra, segundo o relatório Fiscal Monitor divulgado no dia 14. Em dinheiro, são cerca de US$ 111 trilhões, perto de tudo o que o mundo produziu no ano passado.

O que mudou foi o preço de refinanciar esse estoque. De fevereiro a setembro, o juro médio do papel de dez anos dos países do G7 subiu pelo menos 1 ponto e chegou ao maior nível em quase duas décadas, conforme o relatório.

A alta tem duas origens. A guerra no Oriente Médio levou a energia e a inflação para cima, e bancos centrais voltaram a subir juros para conter o preço. Do outro lado está a própria dívida. Com mais títulos no mercado, quem compra passa a cobrar mais para emprestar.

O preço de rolar a dívida mudou

Nos Estados Unidos, o papel de dez anos fechou esta quarta-feira em 5,13%, e o título de 30 anos, em 5,42%, os maiores rendimentos desde 2002, conforme os dados do Tesouro. A dívida federal total somava US$ 40,4 trilhões na segunda-feira. O FMI projeta que os juros pagos pelo governo americano cheguem a 5,7% do PIB em 2031, contra cerca de 2,8% no período anterior à pandemia.

A lista do Fundo para este ano mostra o Japão isolado no topo, com 199,4%. Entre as economias grandes, a Itália vem bem atrás, com 137,9%, seguida pelos Estados Unidos, que aparecem com 126,8%. A França tem 118,5%, o Canadá, 115,6%, e a China cruza a linha dos 100% pela primeira vez na série do Fundo, com 104,4%.

O juro médio que os governos pagam sobre a própria dívida deve chegar a 3,7% em 2031. Em 2021, era de 2,3%. Nos países de renda baixa a conta já chegou. Os juros consomem mais de 15% de tudo o que esses governos arrecadam.

O déficit primário global, que exclui justamente o pagamento de juros, está em 3,3% do PIB neste ano. Para a dívida parar de crescer, teria de cair para 2,6%. A diferença de 0,7 ponto de PIB é o ajuste que o próprio relatório descreve como ausente em boa parte dos países.

O Japão é o teste que já está em curso

Nesta quarta-feira, Sanae Takaichi fecha um ano como primeira-ministra do Japão e carrega a maior dívida pública do mundo desenvolvido. O governo japonês deve 204,8% do PIB, cerca de US$ 9,1 trilhões, quase o dobro do que o país produz em um ano.

A trajetória, no entanto, é de queda. O FMI projeta 199,4% para este ano. Em 2025, o juro médio que o Japão paga sobre a dívida ficou em 0,7%, e o PIB nominal avançou 4,5%. O prazo médio dos títulos é de nove anos, o que distribui qualquer alta de juro por quase uma década.

O problema aparece nos títulos novos. No fim de setembro, o juro do papel de dez anos passou de 3%, algo que não ocorria desde 1996. O papel de 30 anos chegou a 4,2% no dia 5, o maior nível já registrado. Nesta terça-feira, o leilão de títulos de 20 anos atraiu procura recorde, de 5,84 vezes a oferta, e o juro recuou para 3,71%. No fechamento de terça, o papel de 10 anos estava em 2,93%, e o vencimento de 30 anos, em 3,99%.

Quem compra também mudou. Desde 2010, boa parte do aumento da dívida global foi absorvida pelo setor público doméstico, e o Fundo vem apontando o peso crescente de intermediários alavancados fora dos bancos e a redução da vantagem que os títulos americanos tinham como refúgio. No leilão japonês de terça-feira, a seguradora Fukoku disse ver espaço para trazer recursos de papéis estrangeiros de volta ao título do país.

O orçamento já sente. As agências do governo pediram 143,66 trilhões de ienes para o ano fiscal que começa em abril, e o Ministério das Finanças passou a trabalhar com um juro de 3,8% nas projeções, contra 3,0% no orçamento anterior. O serviço da dívida, que inclui juros e amortização, chegou a 36,64 trilhões de ienes, o maior valor da série, e Takaichi promete limitar a oferta de papel novo a cerca de 40 trilhões de ienes.

Dois testes já têm data. O corte de dois anos no imposto sobre alimentos, com início previsto para abril de 2027, ainda não tem fonte de receita definida, e a decisão do banco central japonês sai em 30 de outubro.

O ouro e o bitcoin não subiram com a dívida

Se a dívida recorde bastasse para sustentar os ativos de proteção, 2026 teria sido o ano deles. Não foi. O ouro está em US$ 4.133 a onça, 26% abaixo do recorde de US$ 5.594,82 de 29 de janeiro, e o bitcoin, em US$ 84,5 mil. Os dois recuam entre 4% e 5% desde o começo do ano.

O juro explica parte do movimento. Com o papel de dez anos dos Estados Unidos pagando 5,13%, o investidor recebe hoje mais em títulos do que ouro e bitcoin entregaram em nove meses. O bitcoin segue na faixa dos 80 mil desde o começo do mês, com o juro longo no caminho, como o site mostrou no dia 12.

A comparação vale para 2026 e não fecha a discussão. Nesta quarta-feira o petróleo recuou 4%, com a proposta de trégua no Oriente Médio em negociação, e a energia é uma das origens da inflação que empurrou o juro longo neste ano. Se ela ceder de forma sustentada, a dívida continua perto de 94% do PIB. O que cairia é o juro que os governos pagam por ela.

O FMI projeta 100,3% do PIB em 2030, 5,7 pontos acima do nível deste ano. No Japão, o serviço da dívida do próximo orçamento custa 36,64 trilhões de ienes e o papel de 30 anos paga 3,99%. Os leilões dos próximos quatro anos vão dizer se o resto do mundo paga o mesmo.

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