A Polkadot manda trocar as chaves de quem usou a extensão Fearless desde 2025
A Polkadot Community Foundation publicou nesta quarta-feira um aviso para quem instalou a extensão de navegador da Fearless Wallet. Quem abriu a carteira ao menos uma vez desde fevereiro do ano passado deve tratar todas as contas que passaram por ali como comprometidas e criar chaves novas fora do Fearless. O motivo está no código do próprio aplicativo, que passou a mandar as chaves privadas das contas para um servidor de terceiros assim que a carteira era desbloqueada.
Oito pessoas relataram movimentações que não fizeram e que a fundação diz ter localizado na blockchain. A soma chega a 17.286 DOT, perto de US$ 20,2 mil pela cotação desta quarta-feira. A conta tende a crescer, porque o aviso trata como exposta qualquer carteira que tenha passado pela extensão, mesmo que o dono não tenha visto saída nenhuma até agora.
O envio acontecia na hora de desbloquear
O trecho entrou no projeto em fevereiro de 2025, no dia 19, junto de uma alteração ampla batizada de "TON ecosystem". Ficou escondido dentro de uma função que deveria apenas atualizar o saldo de tokens da rede TON. Quando o usuário digitava a senha para abrir a carteira, a função recolhia a semente da conta. Se a conta tivesse sido criada de outra forma, recolhia o arquivo de backup, com a senha em texto puro. Depois embaralhava tudo com uma chave vazia, que qualquer programa desfaz em um comando, e colocava o resultado no link de uma chamada para tonscanner.org, um domínio fora do projeto.
Nada aparecia na tela. Qualquer erro no caminho era descartado sem aviso ao usuário, e as contas que já tinham sido enviadas ficavam anotadas em uma lista local para não repetirem o caminho. Quatro versões carregaram o trecho e o executaram. A 3.0.1 abriu a série, depois vieram a 3.0.3, a 3.0.4 e a 3.0.5. A 3.0.2 chegou a trazer o código no pacote, sem que nada o acionasse.
Um arquivo público ligava e desligava o envio
A partir da 3.0.3, o destino dos dados deixou de estar escrito no aplicativo. Passou a vir de um arquivo de ajustes hospedado no GitHub, em um repositório público mantido pela própria desenvolvedora. Com o campo do servidor preenchido, o envio acontecia. Com o campo apagado, parava.
O histórico de alterações do repositório registra nove períodos com o campo ativo. O primeiro aparece em março de 2025, no dia 7. O último começou em 15 de maio daquele ano e só terminou em outubro de 2026, no dia 10. Somados, os nove períodos ficaram ativos por cerca de 571 dias.
O trecho saiu do repositório no dia 25 de junho deste ano. Para quem já tinha a extensão instalada, não mudou nada. As três versões mais recentes com o trecho continuam no navegador de quem baixou e consultam o arquivo sempre que a carteira é aberta. Se o campo voltar, os envios voltam. Por isso a fundação pede que a extensão seja removida depois que os fundos estiverem em segurança.
A loja continua entregando a versão comprometida
Na tarde desta quarta-feira, a página da Fearless Wallet na loja de extensões do Chrome mostrava a versão 3.0.5, atualizada pela última vez em abril do ano passado, no dia 9, e o botão de instalação seguia disponível. Nenhuma versão nova foi publicada desde então. A desenvolvedora registrada é a SORAMITSU AG, com endereço em Baar, na Suíça. O site da carteira também mantém o convite para baixar a extensão e informa 250 mil usuários.
A versão para Firefox usou o mesmo código e saiu da loja. Quem a usou no período deve tratar as chaves como expostas. Os aplicativos para Android e iOS revisados pela fundação não trazem o trecho, e isso só protege quem nunca levou a mesma frase de recuperação para o navegador, situação comum quando o backup do Google Drive é restaurado dentro da extensão.
O que fazer com DOT travado em staking
Parte dos afetados não consegue esvaziar a conta na mesma hora. DOT em staking, em pool de nominação ou preso a um voto de governança não sai com um clique. A orientação é iniciar o desbloqueio do staking, que para nominadores leva de 1 a 2 dias, e buscar o PAPI Rescue, ferramenta feita pelo time do polkadot-api para resgatar o que sobrou em carteiras invadidas. A chave privada não precisa ser entregue a ninguém, nem a quem se apresente como suporte.
Vale olhar o histórico da conta antes de qualquer coisa. Staking interrompido sem ordem do dono, destino de recompensa alterado, saída de pool, voto removido e transferências pequenas de teste são sinais de que outra pessoa já usa a chave. A fundação também alerta para golpes de recuperação e lembra que a Polkadot não tem conta de suporte no X.
Os relatos chegaram antes do aviso
Em outubro de 2025, um usuário abriu um tópico no fórum da Polkadot para relatar a perda de 260,05 DOT três dias depois de atualizar a carteira. O suporte da Web3 Foundation respondeu naquele momento que nenhuma falha no aplicativo havia sido confirmada. Esse é o primeiro caso da lista que a fundação mantém hoje, com data de 30 de setembro do ano passado.
Os oito relatos vão de setembro do ano passado a setembro deste ano. O maior deles passou de 8,9 mil DOT, em uma conta aberta no Fearless e depois migrada para outra carteira. Nos oito, as transações relatadas aparecem na blockchain, sem que se saiba como cada chave vazou.
A Fearless nunca foi carteira oficial da Polkadot. O aviso destaca isso no alto do texto, ao lado do pedido para trocar as chaves, e sugere a Nova Wallet para criar o par novo. Até a tarde desta quarta-feira, nem o site da carteira nem a página da extensão na loja traziam menção ao aviso.
Onze dias separam o desligamento do interruptor da publicação do aviso. Nesse intervalo, a extensão seguiu instalada nos navegadores, sem atualização e sem aviso a quem já a tinha aberto.
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