Bitcoin

O BIS concluiu que bitcoin não é dinheiro, e Saylor diz que ele nunca precisou ser

O BIS, o banco que reúne os bancos centrais, publicou em 14 de outubro um estudo de 43 páginas com uma conclusão que o mercado cripto vai reconhecer. O bitcoin não chega a ser dinheiro. O motivo, para o autor do texto, Iñaki Aldasoro, é que a rede entrega o ativo e deixa de fora o que faz qualquer moeda ser aceita por gente que nunca se viu, a malha de instituições que garante que a promessa será honrada no vencimento.

Michael Saylor, presidente executivo da Strategy, diz algo parecido por um raciocínio que corre na direção oposta. O bitcoin, na visão dele, pertence à categoria de capital. A função de moeda fica com produtos construídos em cima do ativo.

O cachorro que só queria dinheiro

No meio do texto aparece um meme de rede social. A legenda reclama que o mundo inventou ativos e passivos ao mesmo tempo, quando bastava ter inventado os ativos, e a piada é sobre Luca Pacioli, o italiano do século 15 que publicou o primeiro tratado sistemático de contabilidade por partidas dobradas. Na imagem, um cachorro quer dinheiro e não quer recibos.

O cachorro serve para descrever quem compra ouro. Nenhum preço é fixado em ouro e nenhuma compra é quitada em ouro. O valor que se enxerga ali está no fato de o metal não dever nada a ninguém, não estar preso à saúde de um banco ou ao caixa de um governo. É por isso que o texto trata o ouro como protesto monetário. O bitcoin, escreve Aldasoro, segue o mesmo impulso com uma camada tecnológica por cima.

Nesse ponto aparece a concessão que costuma passar batida. O projeto de Satoshi Nakamoto tira do sistema a confiança no emissor. A confiança em si continua necessária, porque o dono da moeda depende de outros aceitarem recebê-la, hoje e amanhã. O papel também admite que a hierarquia não desapareceu do mercado cripto. Ela foi refeita de forma tosca, com corretoras fazendo o papel de banco, e sem as proteções que séculos de crise e regra acumularam.

O que o estudo aponta como falha

A crítica mais dura é sobre a oferta fixa, que, na formulação do papel, não reage a nenhuma situação que o mundo possa apresentar. No dia em que todo mundo quer liquidar, a rede não tem como ampliar os meios de pagamento. Nos dias em que a disciplina protegeria o valor, a emissão de token novo segue sem trava. O papel recorre à contagem da CoinMarketCap, com cerca de 8 mil ativos em negociação, e à da CoinGecko, que acompanha 18,6 mil. O total de tokens já detectados pela CoinMarketCap, na medição de agosto, está na casa das dezenas de milhões.

O histórico como moeda de curso legal também é curto. O bitcoin foi aceito por obrigação em El Salvador e, por pouco tempo, na República Centro-Africana. Nenhum dos dois casos produziu uso corrente, e El Salvador desfez a exigência de aceitar em janeiro do ano passado, na mesma reforma que tirou do Estado a tarefa de converter a moeda. A isenção de imposto sobre o ganho que sobrou daquela lei é mais estreita do que a fama do país sugere.

O mesmo lugar pela porta do capital

Saylor nomeia as camadas. O capital digital ocupa a base, e sobre ela vêm o crédito, o rendimento e, no fim, uma forma de dinheiro que ninguém precisa gastar em bitcoin. Foi essa a formulação que ele levou ao palco de Praga em junho, ao chamar o capital digital de fundamento para o crédito, o dinheiro e o rendimento digitais.

A Strategy vende essa camada. A empresa tem a maior tesouraria corporativa de bitcoin do mundo, com cerca de 848 mil bitcoins, algo perto de US$ 72 bilhões pela cotação desta quarta-feira. A ação preferencial STRC paga 12% ao ano, em parcelas quinzenais, e o dividendo só existe quando a companhia declara que vai pagar.

Na semana passada, em um evento para investidores da ParaFi, Saylor apresentou o passo seguinte. O produto seria um dólar com lastro em bitcoin, de volatilidade baixa e rendimento entre 6% e 8% ao ano, pensado para pagar, servir de garantia e ser sacado em poucos dias. Quem paga com ele não gasta bitcoin. Gasta a promessa que a Strategy e seus parceiros fazem sobre o ativo.

Quem absorve a perda quando a promessa falha

A aproximação mais forte entre os dois textos está na estrutura. No caso do ouro, quem faz o serviço de liquidar é uma pilha de crédito montada por cima do metal. O metal ancora o sistema e praticamente não circula. Saylor diz o mesmo do bitcoin e chama o andar de cima de crédito digital.

Daí em diante eles se separam. O papel sustenta que a parte de cima só funciona com socorro público. O banco central cria o meio de pagamento final quando ninguém mais quer emprestar, o seguro de depósito divide o prejuízo com quem depositou e a regra obriga quem emite promessa a manter capital. Saylor não tem nenhum desses três na estrutura que vende. A perda para no balanço da Strategy e no bolso de quem comprou as ações preferenciais.

Esse desenho já rodou uma vez. Celsius e BlockFi, que pagavam rendimento sobre depósitos em cripto, e a corretora FTX quebraram em 2022 sem rede pública atrás. Os clientes foram tratados como credores comuns.

O teste que o papel propõe

O estudo fecha com três condições para qualquer forma nova de dinheiro. Ela precisa ser cotada na mesma unidade em que as pessoas fazem suas contas, garantir que valha o mesmo que o dinheiro emitido pelo banco central na hora do resgate e contar com socorro público quando faltar liquidez no mercado. Stablecoins, diz o texto, só entram no sistema quando aceitarem supervisão, exigência de capital, prestação de informação e, no limite, as proteções que dividem o risco de quem emite com o resto da sociedade.

O dólar com lastro em bitcoin que Saylor desenhou não diz como garantiria essa equivalência fora do mercado secundário, nem quem socorreria o emissor em uma corrida de saques. A STRC, que já está à venda, paga 12% ao ano e depende do caixa da empresa para honrar o calendário.

A estrutura de crédito que o estudo descreve como incompleta já estava à venda antes de o texto existir, e o projeto de dólar lastreado em bitcoin foi apresentado na semana passada. Nenhum dos dois depende do aval do BIS para seguir em frente.

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