100 mil fazendas indianas já têm registro na Cardano, e nenhum empréstimo saiu
Na Índia, 100 mil fazendas de seis distritos da região de Amravati, em Maharashtra, ganharam registro na rede Cardano. O anúncio é da Cardano Foundation e saiu nesta quarta-feira. Cada ficha amarra a identidade de um agricultor a uma área de terra com o contorno conferido por imagem de satélite.
O que fica gravado na rede é a prova do que foi conferido. Entram a identidade digital do produtor, o contorno do terreno e um histórico de biomassa e de cultivo que chega a 12 anos, montado pela DigiFarm com quatro verificações por ano. Nome, documento e conta bancária ficam fora, e o agricultor escolhe quem consulta cada ficha.
O registro nasce no campo. Um agente agrícola, chamado no projeto de agri-entrepreneur, visita a propriedade e anota a área e a atividade. O satélite compara o contorno do terreno com a imagem atual e com o histórico da área. Identidade e consentimento entram na mesma transação, para que qualquer serviço consiga rastrear a origem do dado. A partir daí o agricultor pode liberar a mesma ficha para sustentar outra decisão, um pedido de crédito ou a venda da safra.
O alvo é o retrabalho. Banco, comprador e seguradora costumam refazer a mesma checagem por conta própria, e cada um fica com um pedaço da informação. O documento que pediu o dinheiro ao tesouro da Cardano descreve essa repetição como custo para os dois lados, o produtor que paga pela vistoria e a instituição que refaz a análise de risco.
De 1.056 fazendas no piloto aos 100 mil registros
O piloto rodou entre janeiro e março, em três fases, e fechou com 1.056 fazendas validadas na rede principal. A virada para escala veio no primeiro dia de abril, com o campo em ritmo de 500 fichas por dia. Em 5 de maio eram 10.500. Em junho o projeto passou de 15 mil. Até esta quarta-feira entraram 85 mil fichas novas, pouco mais de quatro meses de trabalho.
O endereço público que a fundação indica para conferir o registro é um contrato na rede Cardano, e ele seguia ativo nesta quarta-feira. Em uma janela de 12 horas, o endereço recebeu mais de 1.000 transações. De acordo com a fundação, cada uma delas grava uma fazenda.
A estrutura que alimenta o cadastro dá a dimensão do esforço. A fundação Syngenta na Índia trabalha com cerca de 26 mil agentes de campo e 2,6 milhões de agricultores, e os 100 mil registros equivalem a pouco menos de 4% desse universo. O público maior é outro. Fora dos circuitos formais de crédito estão 100 milhões ou mais de produtores rurais de pequeno porte, pela conta que a Cardano Foundation apresenta no estudo de caso do projeto.
O comércio já participa. A PepsiCo bancou dois anos de operação de 2.200 agentes agrícolas, a Cargill aparece como parceira de cadeia de suprimentos e o governo de Maharashtra trata a camada de informação agrícola como bem público. A Cardano vinha empilhando aplicações industriais, entre elas o rastreio de combustível sustentável para a Petrobras.
O tesouro pagou e o primeiro marco vence em dezembro
A retirada de 10 milhões de ADA foi aprovada pela governança da rede e entrou em vigor em 28 de junho. O dinheiro não sai de uma vez. São 5 milhões na aprovação, 2 milhões quando o projeto entregar 200 mil agricultores registrados e 3 milhões quando as três aplicações de uso previstas estiverem rodando sobre o cadastro, em junho de 2027.
O primeiro marco está a dois meses. Até o fim de dezembro, o cadastro precisa dobrar de tamanho para chegar aos 200 mil. O contrato prevê 350 mil registros até junho do ano que vem e 500 mil no fim de 2027, com expansão para Camboja e Quênia no mesmo período.
O pedido foi feito em ADA, e o valor em dólar depende da cotação. No dia em que a retirada entrou em vigor, os 10 milhões valiam US$ 1,45 milhão, pela cotação da CoinGecko. Nesta quarta-feira valem US$ 2,28 milhões, com a ADA valendo US$ 0,228. O documento tem regra própria para o caso de a moeda cair. Não há pedido complementar, e o que sobrar acima de US$ 3,5 milhões volta ao tesouro.
A Cardano Foundation votou sim, com ressalvas registradas no parecer que acompanhou o voto. O texto aponta que o orçamento vem por categoria, sem detalhar quanto cada parceiro recebe, e que a verba para taxas de transação funciona como subsídio, o que não prova demanda própria pela rede. A fundação também preferia uma retenção maior, atrelada à auditoria final.
O crédito ficou para 2027
Não há registro público de empréstimo concedido a partir do cadastro. A perna financeira do projeto é a Seedstars, que monta a pontuação de crédito e a oferta de empréstimo. O desenho aprovado começa com um grupo piloto de 1.000 a 5.000 agricultores. Os empréstimos para insumo e para capital de giro vão de 100 a 500 dólares, e a escala seguinte chega a 1.000 dólares.
O capital não sai do tesouro. Bancos parceiros entram com o dinheiro, junto de instituições de microfinanças, de agências de desenvolvimento e de fundos de crédito. O tesouro financiou a integração, as interfaces para credores, a carteira e o monitoramento da devolução. Cada agricultor deve acrescentar cerca de 10 transações ao sistema, entre origem do empréstimo, parcelas, atualização da pontuação e movimentação da carteira.
O próprio documento lista o risco. A prova da perna financeira depende de o grupo escolhido de fato tomar crédito e pagar. Até junho de 2027, quando os primeiros desembolsos por trilho de moeda digital atrelada ao dólar precisam aparecer, com um grupo de 5.000 a 10.000 produtores, o que existe é um cadastro grande e uma decisão de crédito que nenhum credor tomou. O piloto de crédito cobre de 1% a 5% dos 100 mil registros.
A conta que fecha o ano é a de dezembro. O cadastro precisa chegar aos 200 mil agricultores para liberar os 2 milhões de ADA seguintes, e o ritmo das últimas semanas deixa a meta ao alcance se o campo mantiver a média. A marca seguinte é a de junho de 2027, com 5.000 a 10.000 agricultores que tomaram crédito, pagaram a parcela e devolveram o histórico ao cadastro, o que o documento chama de prova do ciclo fechado.
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