O FBI fala em US$ 17 bilhões apreendidos, e quase 90% disso é um lote de bitcoin que vale menos hoje
O presidente Donald Trump recebeu na quarta-feira, na Casa Branca, Kash Patel, chefe do FBI, Markwayne Mullin, secretário de Segurança Interna, e Todd Blanche, procurador-geral, para apresentar o balanço do combate aos golpes financeiros vindos do exterior. Trump abriu o evento com os números que a Casa Branca queria destacar. As forças federais avisaram mais de 10 mil americanos que estavam na mira de golpistas, evitaram US$ 1,6 bilhão em perdas neste ano, congelaram quase US$ 1 bilhão em cripto ligado a criminosos estrangeiros, derrubaram mais de 500 sites falsos e interromperam milhões de contas usadas por essas redes. Trump chamou os ativos de cibermoeda.
As três quantias do discurso medem coisas diferentes, e apenas uma tem documento público que a sustente. Nenhuma delas é dinheiro que voltou para quem perdeu. O congelamento é uma ordem judicial sobre carteiras, a perda evitada é uma estimativa feita antes de o dinheiro sair e o valor apreendido acompanha o preço do bitcoin no dia em que a apreensão foi anunciada.
A conta por trás do número redondo está em uma página do Departamento de Justiça
O valor que Trump arredondou para quase US$ 1 bilhão aparece com centavos em uma página da Procuradoria Federal para o Distrito de Columbia, atualizada em 15 de outubro. A equipe de apreensão de cripto da Força-Tarefa de Centros de Golpe informa ter posto sob restrição US$ 938.460.156,82. O cartaz exibido no evento trazia o mesmo total. O grupo reúne a procuradoria de Washington, o FBI, o Serviço Secreto e a área criminal da pasta da Justiça, com apoio do Departamento de Estado, da OFAC do Tesouro e do Departamento de Comércio.
A conta subiu em degraus. Em abril, o departamento falava em mais de US$ 700 milhões sob restrição e 503 sites de investimento falso derrubados. Em julho, o total passou de US$ 800 milhões depois de cinco casos de fraude. Em setembro, a ação contra a Xinbi Guarantee, um mercado de serviços para golpistas que funcionava no Telegram, acrescentou US$ 52 milhões ao acumulado em um dia e o levou para perto de US$ 938 milhões. O Tesouro sancionou a Xinbi na mesma data, e a Tether colaborou com os investigadores.
Restrição é a etapa que vem antes do confisco. Os ativos ficam parados por ordem da Justiça, em geral cumprida por uma corretora ou por uma emissora de stablecoin, enquanto os procuradores provam a origem criminosa. Até uma decisão final, o dinheiro segue bloqueado, não vira propriedade do governo e não pode ser usado por ele.
Os US$ 17 bilhões do FBI são quase todos um lote só de bitcoin
Patel levou ao palco um número muito maior. O FBI, o Departamento de Justiça e as procuradorias federais apreenderam mais de US$ 17 bilhões nesses centros de fraude, disse ele. Apreendeu, repetiu, e isso quer dizer dinheiro que o governo recuperou. A maior parte desse valor tem uma origem única, e ela é pública desde outubro do ano passado.
Em 14 de outubro de 2025, o Departamento de Justiça indiciou o cambojano Chen Zhi, fundador do Prince Group, e entrou com a maior ação de confisco da história da pasta. O alvo era um lote de 127.271 bitcoins guardados em 25 carteiras sem custódia cuja chave privada estava com ele. Naquele dia, o lote valia cerca de US$ 15 bilhões, o equivalente a US$ 117,9 mil por moeda. As moedas estão sob custódia do governo americano desde o anúncio, e Chen Zhi segue foragido.
O resto dos US$ 17 bilhões vem de operações menores. A Sand Dollar, feita com a polícia de Dubai e o Ministério da Segurança Pública da China, apreendeu cerca de US$ 300 milhões. Ao complexo Tai Chang, em Mianmar, os investigadores ligam US$ 30 milhões. A Xinbi, os US$ 52 milhões de setembro. Juntas, essas ações não chegam a 10% do total anunciado.
O valor do anúncio, porém, encolhe com o preço da moeda. A cotação da CoinGecko para esta quinta-feira era de US$ 81,7 mil por bitcoin. O mesmo lote de 127.271 moedas vale US$ 10,4 bilhões, US$ 4,6 bilhões menos do que no dia do anúncio, uma queda de 30,7%. Nenhuma moeda saiu do lugar e nenhuma vítima recebeu nada. O que o governo americano tem é uma quantidade de bitcoins, avaliada pelo preço de um dia.
Nenhuma das duas contas diz quanto voltou para as vítimas
Nas duas contas, o que existe é dinheiro fora do alcance dos golpistas. A página da força-tarefa diz que a equipe de cripto trabalha para rastrear o dinheiro tomado e devolver o que for possível às vítimas, e não informa quanto já devolveu. Para chegar lá, é preciso vencer o confisco na Justiça, rastrear moeda por moeda até uma vítima identificada e abrir o processo de remissão em que cada pessoa comprova a perda. Em casos grandes, esse caminho leva anos.
O governo montou estruturas para isso. Uma ordem executiva de março criou um programa de restauração de vítimas, e um memorando de segurança nacional de agosto autorizou empresas privadas selecionadas a fazer vigilância e ações cibernéticas ofensivas contra as redes criminosas. Blanche anunciou uma célula contra centros de golpe dentro da Homeland Security Task Force, procuradores em todas as 94 procuradorias federais e a negativa de vistos a operadores pelo Departamento de Estado, sem dizer quantos foram recusados nem de quais países.
Nos estados, a devolução segue outro caminho, e no Alabama uma lei passou a obrigar caixas cripto a ressarcir quem cai em golpe.
O programa que avisa antes do prejuízo tem contas próprias
O FBI mantém o Operation Level Up, que identifica vítimas de fraude de investimento em cripto e entra em contato antes de o dinheiro sair. O material da operação divulgado em setembro registra 10.406 pessoas avisadas, 77% delas sem saber que estavam sendo enganadas. São US$ 660 milhões em perdas evitadas, US$ 122 milhões em cripto apreendidos ou congelados, 584 sites derrubados, 7.670 contas repassadas a empresas de tecnologia e 99 pessoas encaminhadas para atendimento de prevenção ao suicídio.
O US$ 1,6 bilhão citado por Trump não tem memória de cálculo publicada. O discurso atribui o total às forças federais como conjunto, e o único programa que publica números parciais fecha em US$ 660 milhões evitados mais US$ 122 milhões bloqueados. A diferença pode estar em agências que não tornaram públicas suas parcelas, mas nenhum documento apresentado até esta manhã recompõe a soma.
A dimensão do problema aparece em outras fontes. Mullin disse que americanos acima de 60 anos tiveram US$ 7,7 bilhões em perdas com golpes digitais no ano passado. O relatório anual de crimes cibernéticos do FBI registrou US$ 7,2 bilhões só em fraude de investimento com criptomoedas em 2025. Um levantamento da Consumer Federation of America estimou US$ 148,2 bilhões em perdas com golpes online em 2025, alta de 26% sobre 2024, com mais da metade dos valores passando por cripto.
O que o governo tinha para mostrar nesta quinta-feira são duas fotografias de preço. A da força-tarefa foi tirada em 15 de outubro, com US$ 938,5 milhões sob restrição. A do FBI é mais antiga e maior, e vale US$ 10,4 bilhões hoje. A única cifra que responderia à pergunta das vítimas, a do dinheiro efetivamente devolvido, não foi anunciada no palco.
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