Os 817 bitcoins da Datavault existiam no saldo da corretora, não no blockchain
A Datavault AI, empresa de tecnologia listada na Nasdaq, informou na segunda-feira que não consegue sacar 817,61 bitcoins de uma conta na corretora Biconomy desde junho. As ações caíram 49,55% na terça-feira, para US$ 0,067, com cerca de 246 milhões de papéis negociados. No mesmo documento em que relatou o problema, a companhia foi além e afirmou o que ninguém esperava. Para efeito de balanço, aqueles bitcoins nunca foram um ativo dela.
A história começa em setembro de 2025. A Scilex assinou a compra de US$ 150 milhões em ações da Datavault, mais warrants, e pagou em bitcoin, a US$ 112.915,52 por moeda, o que daria 1.328,43 bitcoins. Desses, 1.309,04 foram creditados na carteira da Datavault na Biconomy, com 19,39 bitcoins de desconto referentes a adiantamentos que a Scilex havia feito à empresa.
Creditados é a palavra usada no formulário enviado à SEC. A transferência foi off-chain, ou seja, mudou o saldo dentro da corretora e não passou pelo blockchain do bitcoin. Entre o fim de setembro do ano passado e 30 de janeiro, a Datavault vendeu 491,431 bitcoins à Scilex, também por transferência interna, em troca de cerca de US$ 40,5 milhões em dinheiro. Restaram 817,61 moedas, que valem perto de US$ 66 milhões ao preço desta quarta-feira.
Em junho, a empresa pediu para transferir o bitcoin para uma carteira fora da corretora. Até 26 de outubro, data do documento, o saque não havia sido concluído. A Datavault não explicou o motivo, e a Biconomy não se pronunciou publicamente sobre o caso.
O que transformou um problema operacional em crise contábil foi a conclusão a que o comitê de auditoria chegou em 20 de outubro. O bitcoin recebido da Scilex não preenchia os critérios para ser contabilizado como ativo digital da companhia, porque a Datavault nunca teve controle sobre ele. Não havia chave privada. Havia um saldo em nome dela dentro de uma corretora, e saldo em corretora é uma promessa de entrega, como esta matéria mostrou em outro caso.
Com isso, a operação passou a ser registrada como um valor a receber da Scilex pela emissão das ações, o que reduz o patrimônio líquido em vez de engordar os ativos. As correções devem cortar o total de ativos em US$ 8,1 milhões no fechamento de setembro do ano passado, US$ 92,2 milhões em dezembro de 2025, US$ 57,1 milhões em março deste ano e US$ 49 milhões em junho. A empresa avisou que os quatro balanços afetados, do terceiro trimestre do ano passado ao segundo trimestre de 2026, estão suspensos e que investidores deixem de usá-los.
O efeito chegou à operação
A Datavault contava com os bitcoins como fonte de liquidez para tocar o negócio. Sem poder sacá-los, e com a cobrança da Scilex tratada como incerta, a administração disse que está reavaliando a avaliação de continuidade, o teste que responde se a empresa consegue se manter funcionando como planejado. A companhia também não definiu quando vai reapresentar os números corrigidos, e o documento avisa que o atraso pode atingir o balanço do terceiro trimestre e criar risco de conformidade com as regras da Nasdaq.
O caso tem um detalhe circular. Segundo o relatório trimestral da Scilex, a empresa vendeu US$ 200 milhões em ações da subsidiária Semnur para a própria Biconomy, recebeu em bitcoin e usou US$ 150 milhões desse total para comprar os papéis da Datavault. O bitcoin que hoje está preso na corretora saiu dela mesma, dentro de um arranjo entre três empresas em que o mesmo lote de moedas serviu para pagar duas operações.
A Biconomy informa ter US$ 197 milhões em ativos de clientes, com bitcoin em 73% das reservas, segundo divulgação da própria corretora. Não há notícia de auditoria independente desses números, e a empresa não deu explicação pública sobre o saque que a Datavault diz não conseguir completar.
Para o preço do bitcoin, o efeito foi pequeno. As 817 moedas são uma fração mínima do que circula, e a cotação seguia perto de US$ 80,6 mil nesta manhã, sem reação ao caso. O problema é de outra natureza. Ele atinge a confiança nos balanços de empresas que anunciam tesourarias em bitcoin sem dizer quem, afinal, controla as chaves.
A conta fecha de um jeito incômodo. O valor de mercado da Datavault ficou perto de US$ 65 milhões, praticamente o mesmo que valem as moedas que ela não consegue tirar da corretora.
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