Com 15 ajustes no ano, a dificuldade do Bitcoin revela um setor dividido entre mineração e IA
Com 15 ajustes no ano, a dificuldade do Bitcoin revela um setor dividido entre mineração e IA
O bloco 959.616 marcou mais um recuo na dificuldade de mineração, 0,74% de queda no 15º ajuste de 2026. É um número pequeno dentro de um padrão que não é. A rede já alternou entre nove reduções e seis aumentos desde janeiro, um sinal de que o equilíbrio entre poder computacional e emissão de blocos está longe de ser estável.
Ao longo de 28.224 blocos, de 8 de janeiro a 25 de julho, o ajuste médio foi de 6,4 pontos percentuais. Cada correção chega com uma amplitude que o sistema de ajuste automático, desenhado para ser suave, deveria evitar. O algoritmo tenta manter a emissão de blocos a cada dez minutos, e a oscilação forte indica que a base de poder computacional está mudando rápido demais para os parâmetros de 2.016 blocos entre ajustes.
Desde janeiro, a dificuldade acumulada caiu de 146,47 trilhões para 126,23 trilhões. Isso representa uma retração de 13,82% no ano. As altas acumulam 31,04% e as quedas somam 43,96%. O saldo é negativo e mostra um setor encolhendo.
O hashprice, receita diária estimada por unidade de poder computacional, recuou de US$ 37,39 para US$ 32,21 por PH/s. Em 206 dias, o miner médio perdeu 13,8% da receita por hashrate empregado, mesmo com a dificuldade caindo para compensar parcialmente a queda no poder computacional. O hashprice reflete a combinação de três variáveis, o preço do bitcoin, a dificuldade da rede e a taxa de hash disponível, e a tendência desde janeiro é consistente com um setor que vem perdendo força econômica de forma consistente mês após mês.
O Bitcoin é negociado a US$ 64.697 segundo dados ao vivo da CoinGecko, com alta de 0,88% nas últimas 24 horas. O volume movimentado no mesmo período foi de US$ 12,9 bilhões. Desde janeiro, o ativo acumula queda de 26%, um movimento que pesa diretamente sobre as contas dos miners em todo o mundo que operam com margens cada vez mais apertadas.
O preço mais baixo reduz a receita dos miners em dólar. Cada bloco minerado vale menos do que valia em janeiro, e o ajuste de dificuldade, embora alivie parte da pressão sobre os custos operacionais, não compensa a queda do preço sozinho. A conta não fecha para quem não tem contratos de energia abaixo do mercado ou opera com equipamentos de geração anterior.
Grandes empresas de mineração estão redirecionando megawatts contratados para infraestrutura de inteligência artificial e serviços em nuvem. Os ASICs continuam operando, mas em outro tipo de workload com margem mais atrativa.
A lógica econômica é direta. Os miners têm contratos de energia de longo prazo e galpões já construídos. Em vez de operar com margens apertadas na mineração de Bitcoin, alugam essa capacidade para clientes de IA que precisam de data centers com energia garantida e pagam melhor.
Esse redirecionamento está aparecendo nos dados de hashpower disponível. Quando grandes operadores migram capacidade, a taxa de hash da rede cai e o algoritmo responde reduzindo a dificuldade. Mas a recuperação não acontece se a infraestrutura não volta.
A diferença deste ciclo para os anteriores é a natureza da concorrência. Em 2018, miners desligaram porque o preço do bitcoin caiu e a energia ficou cara demais. Em 2022, foi a crise dos credores que contaminou o setor. Agora, a mineração compete diretamente com inteligência artificial por energia e infraestrutura.
A concorrência que muda a dinâmica da mineração
A IA paga mais por megawatt do que a mineração de bitcoin nos preços atuais. Empresas como Core Scientific, Iris Energy e Hut 8 já anunciaram conversão parcial de capacidade para workloads de IA. O hashrate disponível para o Bitcoin encolhe como consequência.
A rede continua com seu mecanismo de correção automática. Cada vez que o poder computacional cai, o alvo é reduzido para que os blocos continuem saindo perto dos dez minutos regulamentares. O sistema funciona como projetado, mas atua sobre o sintoma, não sobre a causa do desequilíbrio.
Se o preço do bitcoin continuar pressionado, mais miners serão forçados a reduzir operação ou migrar capacidade já contratada para IA, onde a margem atual é mais atraente. Se o preço se recuperar de forma sustentada, parte do hashrate pode retornar à rede. O mercado está numa encruzilhada onde a recuperação do bitcoin é condição necessária para a retomada do hashrate.
O ano de 2026 está sendo atípico para a mineração. Diferente de ciclos anteriores, a pressão não vem só do preço do bitcoin, mas também da competição estrutural por energia com data centers de inteligência artificial. A dificuldade cai porque a infraestrutura está sendo redirecionada, não porque os miners estão simplesmente desistindo.
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