Simulação de transações vira arma e engana 5.742 usuários de wallets
A ferramenta criada para proteger o usuário virou a porta de entrada do golpe. Um estudo divulgado por pesquisadores liga 4.224 contratos inteligentes maliciosos a 5.742 vítimas e a perdas de até US$ 3,48 milhões, explorando a simulação de transações das wallets, o recurso que mostra o que deve acontecer antes da assinatura.
A defesa virou a arma.
O preprint, disponível no arXiv, propõe um detector chamado SimGuard, que analisa o bytecode dos contratos e identifica padrões de phishing de simulação. A varredura cobriu Ethereum, BNB Smart Chain, Avalanche e Polygon, em um período de agosto de 2024 a junho de 2025, e associou os contratos a 6.223 transações de vítimas.
A simulação funciona como um ensaio. A wallet roda a transação em ambiente controlado, mostra a mudança de saldo esperada, e o usuário decide se assina com base nessa prévia.
A prévia mostra um caminho. A execução segue outro.
Como a simulação é enganada
Os contratos descritos no estudo têm ramos condicionais que produzem um resultado durante a simulação e outro quando a transação é executada de verdade. Em um exemplo de controle de armazenamento, a prévia devolve o depósito com uma recompensa mínima, e o atacante muda o estado do contrato antes de a transação chegar, enviando o saldo para um endereço controlado por ele.
Existem variações por timestamp, que exploram o horário do bloco posterior, e por limite de gas, que se comportam diferente quando o simulador e a execução final usam parâmetros distintos. Nem toda variante exige alterar dados na rede depois da prévia.
Em um teste controlado, os autores enviaram o saldo de uma conta para um contrato que devolvia apenas 1 wei, a menor unidade do Ethereum, e relataram que várias prévias exibiam estimativa positiva.
Até a menor fração serviu de isca.
A prova e as ressalvas
O estudo nota que a documentação atual do MetaMask chama as mudanças de saldo estimadas de previsões e alerta que o resultado final não é garantido. O paper, porém, não identifica quais versões de wallet, configurações ou mecanismos de simulação as vítimas usavam.
Um caso citado ganha prova na rede. Uma transação de 8 de janeiro de 2025 registra uma chamada Claim movendo cerca de 143,45 ETH, e o contrato envolvido é rotulado como phishing no Etherscan, confirmando o movimento descrito no estudo.
Os achados ainda não passaram por revisão de pares, e o próprio paper traz números inconsistentes para a contagem de contratos na Avalanche e datas conflitantes para o período observado. A avaliação do detector cobriu 44 contratos, 30 deles gerados com Gemini.
O golpe dispensa falha de código e se sustenta na confiança da prévia.
Os autores recomendam rodar a simulação de novo quando o estado do contrato ou os campos de gas mudarem, usar o limite e o preço de gas da requisição real e testar entradas atuais e futuras de bloco e timestamp. Para o usuário, a lição é simples. A prévia que parece lucro pode ser o começo do prejuízo, e assinar sem checar o que realmente sai da wallet é o risco que o estudo acabou de expor.
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