Hash rate do bitcoin cai 19% e mineração migra em massa para IA
O bitcoin está perdendo força de mineração em um ritmo que a rede nunca viu. O hash rate médio de trinta dias recuou 19% desde novembro, passando de 1.108 EH/s para 898 EH/s, segundo dados da Glassnode. É a maior queda em nove meses da história, e ela ainda não mostrou fundo.
Os mineradores estão migrando de vez para os contratos de inteligência artificial, em um movimento que difere das crises anteriores.
Não é um choque passageiro, como o banimento da China em 2021. As empresas públicas de mineração já detêm mais de US$ 70 bilhões em acordos de hospedagem de IA que prendem a capacidade longe do bitcoin, e parte dela pode nunca mais voltar. Os números da rede mostram a dimensão dessa saída.
A maior retirada de mineradores da história
A dificuldade ficou negativa ano a ano pela segunda vez na história, segundo o Hashrate Index. O parâmetro, que ajusta o esforço para encontrar blocos, está 1,1% abaixo do nível de doze meses atrás. Algo que só tinha acontecido em agosto de 2021, quando o banimento chinês derrubou o indicador em 21,2%. Naquele ano, a queda foi violenta e temporária, porque os equipamentos sobreviveram e mudaram de endereço.
A versão de 2026 é mais rasa, porém estrutural.
Contratos de doze a vinte anos de duração na mesma energia que um dia alimentou os ASICs. A dificuldade caiu 19,9% desde o pico de novembro, quando beirava 156 trilhões, até os 126,23 trilhões atuais. O custo de produzir o bitcoin, estimado perto de US$ 54.939 pela conta BitcoinArchive no X, ajuda a explicar o aperto, e desde 2017 o bitcoin passou apenas dez dias abaixo desse custo.
Cada ajuste negativo de dificuldade reduz ainda mais o custo para os mineradores que ficam.
A pressão sobre as margens já cobrou vítimas. A Poolin, ex-maior pool de mineração do mundo, entrou com pedido de proteção contra falência no fim de julho, nos Estados Unidos, depois de anos de dificuldade que se arrastavam desde a crise de 2022. O hashprice, a receita por petahash por dia, está perto de US$ 30 a US$ 32, abaixo do ponto de equilíbrio das frotas mais antigas, e estimativas apontam que de 15% a 20% das máquinas operam com prejuízo.
O capital também está saindo do balanço. As mineradoras públicas venderam mais de 32 mil bitcoins no trimestre para custear a virada. O bitcoin rondava US$ 64.000 no momento em que esta matéria foi redigida, cerca de 49% abaixo do recorde de outubro do ano passado.
O que a ida dos mineradores para IA significa
Os contratos de IA explicam por que essa retirada não se inverte. A Hut 8 reporta US$ 26,6 bilhões em valor contratado de portfólio de IA, enquanto a Core Scientific aluga cerca de 1,1 GW para a CoreWeave. A TeraWulf assinou um contrato de vinte anos com a Anthropic avaliado em US$ 19 bilhões, o maior acordo individual da lista de mineradoras.
A IREN e a Cipher Mining fecharam acordos com Microsoft e AWS de US$ 9,7 bilhões e US$ 5,5 bilhões, respectivamente, todos com duração de anos.
A conta é simples. A hospedagem de IA paga de três a vinte e cinco vezes mais por megawatt do que a mineração.
O diagnóstico é de um gatilho cíclico com uma saída estrutural. A queda do preço começou a debandada, mas foram os contratos de longo prazo que impediram a recuperação histórica. Nem todo mundo vê perigo nessa mudança, e o CEO da Coinbase, Brian Armstrong, minimizou o temor de que a migração de energia afete o preço do bitcoin.
André Dragosch, chefe de pesquisa da Bitwise na Europa, acrescenta que os mineradores podem se arrepender da virada se a rentabilidade se recuperar. O sinal de curto prazo está no gráfico da dificuldade, e se a leitura ano a ano continuar negativa no outono, a rede vai confirmar a primeira contração sustentada do orçamento de segurança da história. Ou nova capacidade substitui os desertores da IA em 2027, ou o bitcoin encara o próximo rali com um colchão mais fino.
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