O Bitcoin testa limpeza no consenso após o fracasso do BIP-110
A cadeia do BIP-110 parou perto do bloco 961.635, e o Bitcoin agora testa o próximo soft fork, o BIP-54, que já enfrenta o cofundador da F2pool.
O BIP-54, conhecido como Consensus Cleanup, faz quatro ajustes pontuais nas regras centrais sem criar formas novas de usar o bitcoin. Para os apoiadores, é manutenção preventiva de uma rede que vale muito mais do que quando as regras foram escritas.
A proposta nasceu com Matt Corallo em 2019 e foi retomada por Antoine Poinsot, contribuidor do Bitcoin Core, entre 2023 e 2024. A numeração oficial veio em abril de 2025.
A primeira correção ataca o timewarp, brecha no ajuste de dificuldade que acontece a cada 2.016 blocos. Um atacante com a maioria do poder de mineração poderia manipular os carimbos de tempo, derrubar a dificuldade ao mínimo em 38 a 40 dias, criar moedas em ritmo acelerado e quebrar contratos de tempo, inclusive os da Lightning Network.
A proposta põe limites de carimbo de tempo nas bordas de cada período de 2.016 blocos, o que barra o método clássico e a variação chamada Murch-Zawy sem mudar a mineração normal.
A segunda correção mira os blocos envenenados, blocos válidos construídos para demorar demais na verificação. Transações antigas podem exigir minutos ou horas de processamento em um computador comum, e o BIP-54 limita a 2.500 o número de assinaturas legadas, o que reduz o pior caso de verificação em até 40 vezes.
A terceira é simples, transações com exatamente 64 bytes passam a ser inválidas, porque podem se passar por peças da árvore de Merkle e enganar carteiras leves. A quarta exige que cada coinbase carregue a altura do bloco.
O BIP-54 já roda no Inquisition, ambiente de teste sobre a Signet, e pools como MARA e ViaBTC já produzem coinbase compatíveis.
O embate pela ativação
O obstáculo do BIP-54 está na política de ativação. Wang Chun, cofundador da F2pool, uma das maiores pools de mineração, declarou no dia 10 que não apoia a proposta, não sinaliza por ela antes do tempo e só atualiza os nós se a ativação padrão do BIP-9 atingir a maioria exigida.
A objeção de Chun, pública desde abril, é de processo e prioridade. Ele compara empacotar as quatro mudanças a misturar assuntos diferentes em um mesmo texto de lei e considera os riscos remotos demais para o custo de coordenação, atualização de software e atenção da comunidade que um soft fork exige. Os apoiadores rebatem que cada mudança de consenso tem custo social alto e que juntar correções defensivas reduz o número de batalhas de ativação.
O fracasso do BIP-110 adiciona cautela. A proposta anterior queria restringir dados não financeiros, como Ordinals e cargas de OP_RETURN, mas não atraiu os mineradores, e a cadeia que a aplicava parou.
A votação do BIP-9, quando os parâmetros forem definidos, dirá se o Bitcoin consegue fazer manutenção preventiva sem repetir o racha do BIP-110. As quatro correções são consenso técnico, e o teste real é da capacidade da rede de aprovar uma mudança defensiva contra a resistência de uma pool grande, um resultado que vai desenhar o caminho dos próximos soft forks.
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