Circle abre caminho para bancos crypto sem depósitos nem crédito
Desde 10 de julho, a autorização definitiva da Office of the Comptroller of the Currency (OCC), órgão que regulamenta os bancos nacionais dos Estados Unidos, cobre a criação do First National Digital Currency Bank, instituição que se apresentará ao público sob o título Circle National Trust. A emissora da USDC passa a manter uma entidade própria sob supervisão bancária federal direta, primeira aprovação concluída entre as grandes empresas do setor desde que a fila de pedidos começou a ser formada, em dezembro de 2025. O comunicado da companhia descreve a medida como marco regulatório e reforço da infraestrutura do dólar digital que emite. A companhia foi também a primeira a receber a BitLicense de Nova York, em 2015, credencial estadual para operações com ativos virtuais.
O que essa instituição não faz importa tanto quanto o que ela faz.
Depósitos de clientes, conta corrente, poupança segurada e crédito imobiliário ficam fora do escopo do Circle National Trust. O plano aprovado indica que, na abertura, o primeiro serviço será a guarda fiduciária dos criptoativos da própria companhia e de suas controladas, com a gestão das reservas do USDC adiada para uma etapa posterior.
O instrumento legal que o setor passou a usar
US$ 7,2 trilhões em ativos estavam sob administração desse tipo de instituição no fim de março.
Os bancos de confiança nacionais sem seguro de depósito concentravam US$ 1,7 trilhão em contas de custódia e guarda, enquanto as contas fiduciárias somavam US$ 5,5 trilhões, segundo números apresentados pela agência na decisão da Morgan Stanley Digital Trust, aprovada em junho. A figura escolhida pelas empresas crypto existe há mais de um século e foi criada para guardar bens de terceiros, executar instruções e manter registros sob padrão fiduciário, trabalho que dispensa captação de depósitos e carteira de crédito. As maiores companhias do setor passaram a se inscrever dentro dessa estrutura a partir de dezembro.
O precedente mais antigo entre as crypto é a Anchorage Digital Bank, carta nacional concedida em 2021 e mantida até hoje, embora a OCC tenha encerrado em fevereiro o acordo operacional original da instituição.
BitGo, Fidelity Digital Assets e Paxos pediram, no lote inicial da nova leva, que saiu em 12 de dezembro de 2025, a conversão de trust companies estaduais em cartas federais, enquanto Ripple e Circle ingressaram com pedidos de carta nova, ambos com sede prevista em Nova York.
A lista cresceu ao longo de 2026 com decisões condicionais para Bridge em fevereiro, Crypto.com nas semanas seguintes, Coinbase em abril e World Liberty Financial em agosto. Nenhuma dessas instituições está autorizada a funcionar, porque a concessão preliminar exige o cumprimento de condições de capital, governança e controles antes da abertura, e a própria Circle ainda precisa completar essa etapa para iniciar as operações anunciadas em julho.
Fila de pedidos e regra da GENIUS Act
Foram 40 pedidos de carta nova recebidos em cerca de 18 meses, e 23 deles envolvem alguma atividade com ativos digitais.
O balanço é do titular da OCC, Jonathan Gould, em evento no Wyoming Blockchain Symposium no dia 19 de agosto. Ele informou que o volume representa oito vezes mais pedidos do que o registrado nos quatro anos anteriores, que a fila inclui nomes do mercado crypto como a Payward, controladora da Kraken, além de Revolut, EDX Trust e Laser Digital, e que pedidos com stablecoin já se tornaram rotina nos planos de negócio apresentados à agência.
A GENIUS Act reescreveu as regras para emissores de stablecoin antes dessa corrida.
Sancionada em julho de 2025, a lei federal expandiu a autoridade da OCC para alcançar emissores de dólares digitais fora do sistema bancário tradicional, e Gould comprometeu-se a publicar a regra final até novembro. O texto deverá detalhar requisitos de reservas, liquidez e supervisão para quem emite sob jurisdição federal. Quem já estiver com carta aprovada entra na nova fase com estrutura pronta, enquanto os demais seguem dependentes da fila e das condições pendentes.
Para o mercado bancário, o movimento redistribui funções.
Os bancos comerciais conservam a captação de depósitos e a criação de crédito, atividades que sustentam o financiamento imobiliário e o crédito às empresas. As novas instituições crypto ficam com custódia de ativos tokenizados, manutenção de reservas e liquidação, camadas por onde o dinheiro digital tende a circular. A migração de saldos dos bancos para tokens enxuga justamente a base que os financiadores usam para emprestar, e cada elo suprimido entre cliente e produto devolve ao emissor do token uma fatia maior de tarifas, informações e comando sobre a operação. Estimativas do próprio setor projetam centenas de bilhões de dólares saindo dos depósitos rumo às stablecoins nos próximos anos.
O preço acompanha a disputa em tempo real. O USDC circulava a US$ 73,5 bilhões nesta semana, e a ação da Circle fechou a US$ 87,98 na sexta-feira, 21, depois de tocar mínima de três meses em US$ 60,35 no início de agosto.
A direção registrada nos documentos oficiais é de supervisão ampliada, com cada decisão condicionada ao cumprimento integral das regras antes da abertura ao público.
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