A Tether entra na rodada da EFY e liga o dólar à conta bancária
A Tether passou a ter participação na EFY Finance, com um aporte na rodada seed da companhia anunciado nesta terça-feira, 13 de outubro. O valor investido não foi divulgado por nenhuma das duas partes. A EFY, empresa de pagamentos transfronteiriços e de guarda de ativos digitais registrada em El Salvador, já leva dólar digital até contas bancárias locais de 17 países e atende pouco mais de 25 mil contas ativas de pessoas e empresas. Entre as praças onde a presença é mais relevante estão Bolívia, Colômbia e México, e a lista segue com Panamá, El Salvador e Equador.
A EFY vende o que o setor chama de entrada e saída, a conversão entre a moeda de cada país e a stablecoin. Também opera mesa de balcão para ordens grandes, oferece carteiras digitais, emite cartões corporativos e guarda ativos de terceiros. As moedas na lista passam de 12, entre dólar, euro, real, peso colombiano e peso mexicano.
O que sustenta o lado institucional do negócio é o registro obtido em 2025 no cadastro salvadorenho de companhias autorizadas a operar com ativos digitais (PSAD-0042).
O que a rodada entrega
Para a Tether, que emite a maior stablecoin do mercado, o aporte compra distribuição em uma região onde a procura pelo dólar já existe e o gargalo está na conexão com o sistema bancário. O presidente-executivo da companhia, Paolo Ardoino, afirmou que o dólar serve de proteção diante da inflação e das restrições à saída de capital na região, e que o acesso simples e confiável a ele depende de estrutura regulada, vínculo com bancos e distribuição real. Na avaliação dele, a EFY foi montada para ocupar esse espaço.
Os números que a própria EFY publica ajudam a medir a escala da operação. A companhia começou a operar em 2023, com US$ 15 milhões movimentados e US$ 800 mil de receita. Em 2024, o volume saltou para US$ 989 milhões. Em 2025, chegou a US$ 1,1 bilhão, e a soma transacionada pelos clientes desde o início passa de US$ 2,5 bilhões.
O cofundador e presidente-executivo da EFY, Andrés Tobón, disse que a stablecoin deixou de ser novidade na região e que o passo seguinte é encaixá-la na rotina financeira que as empresas já usam.
A companhia opera sob regulação em quatro mercados e faz a liquidação para 17 países, com operação em Cidade do México, Bogotá, Lima e San Salvador. O atendimento é descrito pela empresa como ininterrupto, sem depender do horário dos bancos. O foco declarado são empresas que pagam fornecedores, equipes e prestadores em outros países, incluindo exportadores que recebem em dólar e convertem o valor conforme a necessidade do mês. Além da Tether, a lista de investidores publicada no site da EFY inclui Orbit Ventures e Primary X.
A segunda stablecoin no acordo
Além da USDT, a EFY passa a intermediar entrada e saída da USAT, que tem o Anchorage Digital Bank como emissor e chegou ao mercado em janeiro sob regra americana. O ativo já circulava como fonte de liquidez em um hub de crédito da Aave na Avalanche e agora ganha uma rede de pagamentos com pares em real, peso colombiano e peso mexicano.
Para a Tether, entregar as duas stablecoins pela mesma empresa reduz trabalho. Uma estrutura que já conecta dólar digital e banco local pode virar canal da USAT sem montar essa ligação do zero.
A aposta maior na região
A rodada da EFY é a mais recente de uma série de aportes da Tether na América Latina. Em julho, a companhia investiu US$ 20 milhões no banco digital argentino Ualá, em uma captação de US$ 197 milhões que avaliou a empresa em US$ 3,2 bilhões. O presidente-executivo da Ualá, Pierpaolo Barbieri, disse na época que as regras da Argentina e do México impediam a integração imediata da stablecoin e que a Tether entrou apenas como investidora financeira. O contraste entre os dois negócios é de função. A Ualá leva produtos financeiros a 11 milhões de clientes. A EFY constrói a estrutura por onde os pagamentos passam.
No mesmo período, a Tether aportou US$ 20 milhões na brasileira Mercado Bitcoin, liderou uma captação de US$ 7 milhões na Pact Labs, ligada à USAT, e entrou na série A da argentina Belo. As operações têm perfis diferentes e miram empresas que já têm licença e cliente.
O movimento tem lastro no uso. A Chainalysis mediu em cerca de US$ 1,5 trilhão o volume de transações com ativos digitais na região em três anos, de julho de 2022 até o meio de 2025, com avanço de 63% nos doze meses finais da série. A compra de stablecoins responde por mais da metade do que se negocia nas corretoras. O fluxo que entra e sai do continente foi tema de um estudo publicado em agosto.
A autorização obtida em El Salvador cobre o mercado de origem. Nos outros países onde a EFY liquida, valem as regras locais para ativos digitais, e cada uma delas traz exigências próprias.
A concorrência também é doméstica. A EFY afirma concluir a liquidação em até quatro horas em alguns pares e cobrar taxas de 0,3% a 1%, conforme o prazo escolhido pelo cliente, faixas que a colocam na disputa direta com bancos e casas de câmbio. Para empresas, a oferta inclui pagamentos em lote, aprovação por duas assinaturas e integração por API, voltada a quem paga fornecedores e equipes em vários países.
Com os negócios fechados em 2026, a Tether passou a ter posição na corretora local, no banco digital do consumidor e na estrutura que liga o pagamento ao sistema bancário da região.
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