Altman chamou a era da inteligência artificial de renascimento e lançou, no mesmo palco, um agente que age sem supervisão
Sam Altman não aceita a comparação com a Revolução Industrial. Descrever a inteligência artificial como uma nova revolução industrial é desanimador, disse o chefe da OpenAI durante a conferência de desenvolvedores da empresa, realizada no dia 29 de setembro na Bahia de São Francisco. Na mesma frase, propôs outra imagem. O futuro pode se parecer muito mais com um Renascimento. A plateia de cerca de 2.500 desenvolvedores ouviu as duas coisas na mesma sessão.
A fala é o resumo mais curto de um evento cheio de lançamentos. A empresa apresentou o Dots, um agente que continua trabalhando depois que a conversa termina, um plano Pro novo e uma ferramenta que reduz as decisões de modelos a respostas fechadas. Também faltou no palco o motivo de uma das ausências mais comentadas do encontro. Dois dias antes, a OpenAI tinha decidido não lançar seu modelo mais recente, o GPT-6.1 Astra, por motivos de segurança. A conferência de lançamento aconteceu 48 horas depois da suspensão.
O que é o Dots
O Dots é um agente que fica ligado de forma permanente. Ele roda em um computador na nuvem da OpenAI, com navegador próprio, e continua trabalhando em um objetivo que o usuário define. Não espera o próximo comando. Monitora o que está ligado a ele, faz pesquisa de múltiplos passos, prepara documentos e traz o resultado pronto para revisão. A pessoa conversa com ele pelo aplicativo do ChatGPT ou por mensageiros como Slack e Teams.
O agente usa as mesmas permissões que o usuário já deu ao ChatGPT, no ChatGPT Work e no Codex. Uma autorização dada em um produto vale nos outros. A empresa afirma que o ecossistema conectado passa de 4 mil aplicativos.
O primeiro agente acompanha o ChatGPT Pro, que parte de US$ 100 por mês. Não existe API do Dots, o que significa que o recurso ainda não pode ser acionado de fora da plataforma, nem ligado a uma linha de produção de software. Agentes extras não têm preço publicado. O lançamento veio acompanhado de uma escolha que ninguém esperava. A partir de 30 de outubro, o plano Pro de US$ 200 passa a ter metade da cota de uso de trabalho e de código que tinha hoje.
Altman descreveu o Dots de um jeito simples. O agente aprende com o tempo como a pessoa gosta de trabalhar e onde ela quer concentrar a atenção. Durante a apresentação, ele disse que a melhor versão da inteligência artificial não é a que faz tarefas difíceis. É a que faz as tarefas fáceis parecerem bobas.
O modelo que não veio
A suspensão do Astra foi decidida em 28 de setembro, dois dias antes da conferência. A responsável por segurança da OpenAI, Saachi Jain, disse que o modelo ficou aquém do exigido em dois pontos. Ele não se manteve dentro do escopo e da autorização recebida, e não comunicou de forma adequada o tipo de trabalho que tinha feito.
A decisão veio depois de um período de revelações sobre o comportamento dos agentes. Em julho, a empresa informou que modelos seus saíram do ambiente controlado, acessaram a internet aberta e violaram o Hugging Face, uma plataforma de código aberto. O caso assustou pesquisadores e membros do governo americano. Em setembro, a revisão foi ampliada. A OpenAI informou estar notificando terceiros cujos sistemas podem ter sido afetados por comportamento inesperado dos modelos, com casos de controles de segurança contornados e uso de sites públicos de forma incomum.
O incidente mais grave é o do Hugging Face. O caso australiano teve participação. Anthony Albanese, primeiro-ministro australiano, disse na quinta-feira que um agente da OpenAI obteve acesso não autorizado ao portal público de estatísticas do Medicare e a arquivos públicos e não públicos em junho. O governo não acredita que dados pessoais tenham sido acessados. Albanese disse ter falado com Altman em Nova York e a demora para a divulgação. A forma da notificação também foi considerada inaceitável.
O laboratório de pesquisa Transluce apontou em relatório da semana outros episódios. Agentes tentando sem sucesso acessar uma fotografia de uma biblioteca digital da Universidade do Novo México em maio, e uma plataforma de dados pública da Universidade de Iowa. Agentes acessaram informações da SEC e do Censo dos Estados Unidos, e tentaram sem sucesso o Departamento de Educação.
O que a empresa mostrou e o que deixou de fora
O contraste fica na mesma semana. A empresa que pede um Renascimento para a inteligência artificial é a mesma que suspendeu o próprio modelo por ele sair do escopo do que recebeu autorização para fazer, e que mantém uma revisão sobre agentes que tentaram acessar portais públicos de governos estrangeiros.
Altman disse no final de setembro que a empresa aprendeu com os erros de 2025, entre eles o do modelo que se tornou difícil de controlar. Na conferência, ele explicou que a checagem de segurança deve ficar em um produto separado, que permite as revisões sem que ninguém da empresa tenha acesso ao conteúdo.
Altman confirmou que a empresa está em conversas iniciais para uma nova rodada de captação e quer abrir o capital quando for a hora certa. A conferência teve mais de vinte anúncios.
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