EUA reduz rede de caixas de Bitcoin em 2026 e expõe mudança no mercado físico de criptomoedas
Os Estados Unidos operavam 19.506 caixas de Bitcoin em 24 de setembro. No primeiro dia de 2026 eram 30.924. São 11.418 máquinas a menos em menos de nove meses, o equivalente a 36,9% da base instalada no país. Cada equipamento troca dinheiro em espécie por bitcoin e é a principal porta de entrada física fora das corretoras e dos aplicativos.
O país segue no topo desse mercado. Das 27.337 máquinas contabilizadas no mundo em 24 de setembro, 19.506 estão em território americano, quase três de cada quatro. O restante se divide entre Canadá, Europa, Austrália e mercados menores.
Ao longo do ano, o Canadá desligou 55 máquinas. A Europa, 77. Nenhum dos dois mercados perdeu 5% da base que tinha em janeiro.
Um setor físico enfrenta problemas que não aparecem na cotação do Bitcoin
Cada caixa exige uma estrutura que corretoras e aplicativos não precisam manter. O equipamento ocupa um ponto comercial, depende de manutenção e de transporte de dinheiro em espécie, exige contrato com o dono do espaço e impõe a identificação do cliente. A conta mensal do operador começa no aluguel ou na participação sobre o faturamento da loja e termina na conferência de cada transação.
A camada regulatória ficou mais espessa. A Califórnia limitou a tarifa a 15% e o volume diário de cada cliente a US$ 1.000. O Maine fixou um teto de 3% e obrigou a devolução do dinheiro em casos de golpe. Cidades como St. Paul, Spokane e Waltham proibiram as máquinas.
Albuquerque seguiu o mesmo caminho em 10 de setembro, quando o conselho municipal aprovou a proibição. A regra alcança a operação, o aluguel do ponto e o comerciante que cede o espaço.
A justificativa local foi a fraude. Cerca de 90% das transações nas máquinas da cidade estariam ligadas a golpes, segundo a vereadora Stephanie Telles, uma das autoras da medida. O número foi apresentado como argumento político, não como resultado de auditoria. O problema, porém, é medido. O próprio FBI registrou quase 11 mil queixas de vítimas em 2024, com perdas informadas de US$ 246,7 milhões.
As taxas explicam parte da fiscalização. Nos próprios documentos da empresa, o adicional cobrado ia de 15% a 50% do valor, mais US$ 3 por operação. A liquidação imediata e sem estorno serve tanto à conversão de dinheiro em bitcoin quanto ao golpe.
Bitcoin Depot coloca pressão adicional sobre a infraestrutura
A maior operadora do continente saiu de cena. A Bitcoin Depot entrou com o pedido de recuperação judicial pelo Chapter 11 em 17 de maio, na Justiça de falências do distrito sul do Texas, em Houston, junto com suas subsidiárias. O documento entregue à Securities and Exchange Commission afirma que o processo serve para encerrar as operações de forma organizada e vender os ativos, não para reorganizar a companhia.
A frota inteira ficou parada. Segundo a declaração inicial apresentada à Justiça, nenhuma das cerca de 9.700 máquinas da companhia, distribuídas por 48 estados americanos, estava em funcionamento na data do pedido. A operação de máquinas respondia por 99,8% da receita de 2025, de US$ 613,6 milhões.
O motivo apontado pela empresa reúne as duas pressões. O presidente-executivo Alex Holmes afirmou que o negócio ficou inviável com o aumento das exigências de conformidade, os tetos para o tamanho de cada operação e, em parte do território, a proibição pura e simples. A receita caiu quase pela metade no primeiro trimestre, recuo que a própria companhia atribui às leis estaduais e municipais e aos controles antifraude.
A concentração da frota explica o tamanho da queda. No primeiro semestre, o mundo perdeu 10.836 máquinas e 10.380 delas estavam nos Estados Unidos, 95,8% do total. Um ano antes, a rede global havia crescido 1.004 unidades, 513 delas no país.
A recuperação do Bitcoin ainda não mudou o cenário
O encolhimento aconteceu na contramão do preço. O bitcoin ficou quase todo o ano de 2026 em queda e só quebrou a tendência no fim de agosto, quando voltou a subir com força. Em 24 de setembro era negociado perto de US$ 84 mil, cerca de 33% acima do nível do início daquele mês e de volta ao patamar dos primeiros dias de janeiro.
Em setembro, a rede americana somou 38 máquinas, todas nas três primeiras semanas. No acumulado do ano, a perda é de 11.418 equipamentos.
A decisão de instalar ou manter um equipamento não acompanha a cotação no curto prazo. O operador paga aluguel do ponto, transporte de dinheiro, manutenção, seguro e conformidade, custos que não caem quando o preço sobe. O retorno depende de quantas pessoas passam na loja e de quanto dinheiro elas colocam na máquina. Quando um município proíbe o equipamento ou um estado limita a taxa, o cálculo muda no dia seguinte, com ou sem alta no mercado.
A concorrência digital também pesa. Corretoras, aplicativos de pagamento e carteiras resolvem a compra sem deslocamento, com taxa menor e cotação mais próxima da média do mercado. A conversão de dinheiro físico em bitcoin deixou de ser um serviço exclusivo das máquinas.
O que sobrou para as máquinas é um nicho específico. Elas trocam dinheiro vivo por bitcoin em minutos, sem conta em corretora e sem transferência bancária. É esse público que a redução da rede atinge.
O ano deixa uma rede menor e um preço maior para a mesma moeda. A perda está concentrada em uma empresa e em um conjunto de decisões locais, e não em uma queda da procura por bitcoin. O mercado americano segue à frente de todos os outros países em número de equipamentos instalados.
Com o bitcoin acima de US$ 84 mil, a máquina que fechava a conta no limite passa a ter margem melhor. As decisões municipais não acompanham a cotação.
O que ainda pode mexer no número são fatos já em curso. A Justiça de Houston autorizou a Bitcoin Depot a iniciar a venda dos ativos, e cerca de 438 máquinas estão guardadas em galpões de terceiros à espera de comprador. Em Albuquerque, o prazo de 45 dias para a retirada das máquinas começou a contar depois da notificação aos operadores, e o Texas concentrava o maior número de equipamentos da companhia antes do pedido.
A pressão também vem dos tribunais. A Justiça de Iowa processa a CoinFlip e a Bitcoin Depot por facilitar golpes, e o Distrito de Columbia levou a Athena Bitcoin à Justiça após encontrar 93% dos depósitos de sete máquinas ligados a fraude. A Athena contesta.
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