Para o BIS, stablecoin ainda não merece o selo de dinheiro
Pablo Hernández de Cos, diretor-geral do BIS, o clube de bancos centrais sediado na Basileia, defendeu em Jackson Hole que as stablecoins ainda não carregam a garantia exigida de um instrumento de pagamento usado em larga escala. No discurso publicado pelo banco, ele voltou a colocar os depósitos tokenizados como o desenho capaz de capturar os ganhos da tokenização, sob um título que resume a intenção, empurrar a fronteira monetária entre as duas formas de dinheiro digital.
O foco está no que os tokens estáveis entregam hoje, e o teste falha em três propriedades que sustentam a confiança no dinheiro, a unicidade, a interoperabilidade e a integridade financeira.
Por que o dinheiro perde a unicidade
A unicidade é quebrada na prática. Quem tem USDT e precisa pagar alguém que só aceita USDC é forçado a vender uma moeda e comprar outra no mercado secundário, sem garantia de troca ao par, e o deságio em episódios de estresse torna o instrumento insuficiente para quem depende de previsibilidade na liquidação.
A interoperabilidade esbarra na fragmentação. As stablecoins circulam em blockchains públicas, mas as redes não conversam entre si sem pontes dispendiosas e arriscadas, e mesmo a mesma moeda em cadeias diferentes exige contornos para ser aceita.
A integridade fecha a lista. Como os tokens estáveis vivem em carteiras de autocustódia, grande parte das transferências ocorre fora de ambientes com checagem de identidade, e relatórios do próprio setor apontam uso crescente em transações ilícitas, o que contraria o padrão do dinheiro tradicional, dominado pelos depósitos bancários.
Depósitos tokenizados entram no centro
O contraste com os depósitos tokenizados vem da arquitetura, pois são obrigações de bancos em plataforma programável, com a compensação final apoiada em moeda emitida pelo banco central e a paridade preservada por desenho.
A defesa do instrumento parte de um princípio que o BIS repete há anos, melhorar o sistema antigo em vez de trocá-lo por uma aposta nova. Os depósitos tokenizados mantêm o sistema de dois níveis, com banco central e bancos comerciais, e preservam o elo entre captação de depósito e concessão de crédito, o que reduz o risco de desintermediação. Há, ainda, reconhecimento de limites, já que não existem hoje ecossistemas multibancários emitindo o instrumento de forma interoperável e a experiência se limita a plataformas com permissão.
A discussão ganha peso porque o mercado não é pequeno. Segundo a plataforma de dados DeFiLlama, a oferta em circulação de stablecoins supera US$ 310 bilhões, com Tether e USDC concentrando cerca de 83% do total.
Para o BIS, a adoção em escala teria efeitos sobre o crédito, pois ao competir por financiamento as stablecoins fariam os bancos perderem uma fonte barata de depósitos e verem o custo marginal de captação subir, com reprecificação de empréstimos e realinhamento do balanço para ativos mais líquidos. O impacto tende a pesar mais sobre bancos menores e o crédito a pequenas empresas.
Há também um vetor macroeconômico. Se a demanda vier de fora, a compra de títulos soberanos de vencimento breve reduz os yields, e um sistema mais atacadista acelera a transmissão da política, efeitos que o BIS calcula como modestos.
O discurso ainda ressalta o risco para economias em desenvolvimento, onde a adoção de stablecoins lastreadas em dólar pode consumir a soberania monetária, primeiro como reserva de valor e depois nas trocas por preços e liquidação, o que enfraquece a transmissão da política doméstica e amarra as condições locais ao cenário externo.
O próprio BIS admite papéis especializados para os tokens estáveis, como em pools de empréstimos descentralizados, sob regimes robustos de resgate ao par.
A fala em Jackson Hole, no entanto, faz um convite claro aos bancos centrais, manter a unicidade em trilhos programáveis, promover interoperabilidade e integridade, e avaliar de forma sistêmica como as escolhas de desenho afetam o crédito e a estabilidade.
O gesto simbólico reforça a leitura de que a discussão é institucional, não tecnológica, pois o próprio Wyoming lançou uma stablecoin pública, o Frontier Stable Token.
A oferta de US$ 310 bilhões segue crescendo, com cartões de stablecoin cruzando US$ 1 bilhão em gastos mensais, mas a chancela que transforma volume em moeda de verdade ainda não chegou, e é esse contraste entre adoção e reconhecimento institucional que marca o momento.
O selo de moeda não se compra com market cap. Ele se constrói com o compromisso de resgate, com a interoperabilidade entre redes e com a capacidade de rastrear quem transfere.
Enquanto esse teste não passa, a aposta oficial dos bancos centrais fica com os depósitos tokenizados, que herdam a confiança do sistema bancário em vez de tentar substituí-la do zero. A stablecoin pode crescer em número, mas, no entendimento do BIS, a credibilidade para pagar em escala ainda depende de uma estrutura que o instrumento não comprova.
⚠️ Aviso importante
As informações aqui descritas refletem pesquisas realizadas pelo LaboNews e não devem ser consideradas recomendação de investimento ou endosso de segurança sobre ferramentas ou links externos. Recomendamos que, ao investir ou utilizar ferramentas de terceiros, você faça sua própria pesquisa sobre a segurança e os riscos envolvidos.