O dólar no maior nível do ano segura os ativos digitais, e Raoul Pal aponta o que pode destravar a alta
O dólar americano opera no patamar mais alto do ano, e essa força está segurando o dinheiro que poderia irrigar o mercado de ativos digitais. A leitura é de Raoul Pal, à frente da Real Vision, que descreve um setor à espera de um sinal verde que ainda não chegou.
Na avaliação dele, o que trava o mercado é o custo do dinheiro. Juros altos nos títulos públicos e um dólar firme encarecem o financiamento e reduzem o volume que sobra para aplicações de risco.
Pal conhece o terreno que analisa. Trabalhou com vendas de fundos no Goldman Sachs, na Europa, e depois passou pela GLG Partners, onde ajudou a gerir uma carteira macro global. É dele a Global Macro Investor, plataforma de pesquisa criada em 2005. Comprou bitcoin em 2013.
Ele resume a equação em uma aposta. Se o dólar ceder, o mercado de ativos digitais ganha o sinal verde para avançar mais. A ressalva é dele mesmo, que evita o otimismo total e afirma não ver esse sinal aceso em tudo.
A lógica por trás disso é a dívida em dólar. Empresas que faturam em moeda local e pagam compromissos na moeda americana sentem o aperto quando o dólar sobe, porque cada prestação encarece. O efeito é menos investimento, inclusive em ativos de risco.
Os números confirmam o freio que ele descreve. O índice do dólar, que compara a moeda americana a seis divisas, rondava 102,5 pontos nesta semana, perto do topo do ano. O juro do título de dez anos do Tesouro americano girava perto de 5,3%, a faixa mais alta em cerca de duas décadas.
Em setembro, o Federal Reserve subiu os juros em 0,25 ponto, a primeira alta desde 2023, e sinalizou que pode repetir o movimento. Crédito mais caro é o oposto do cenário que Pal gostaria de ver.
O quadro ideal dele combina três condições. Que a moeda americana perca força, que os juros de prazo longo subam mais que os de prazo curto e que os bancos emprestem com mais folga. Se nada disso vem, ele trabalha com um plano B. Basta que as ações ligadas à inteligência artificial andem de lado para o dinheiro ter espaço de migrar para os ativos digitais.
A rotação já deu sinais. Na janela de 19 a 25 de agosto, o bitcoin subiu cerca de 25% e voltou para a casa dos US$ 80 mil. No mesmo intervalo, a Nvidia, ação que virou símbolo da corrida da inteligência artificial, emendou sete sessões seguidas de queda.
Para Pal, a pausa na onda da inteligência artificial libera capital para o setor. O volume disponível, diz ele, segue baixo, e a disputa por esse dinheiro define o ritmo das duas apostas.
O risco que ele enxerga é o desfecho contrário. Se a bolha da inteligência artificial estourar, a liquidez evapora junto, e os ativos digitais não sobem com dinheiro escasso.
Quando o robô vira cliente
Um segundo vetor, na leitura de Pal, vem dos próprios programas de inteligência artificial. Cada vez mais, esses agentes compram conteúdo e serviços na internet sem passar por cartão de crédito, contrato corporativo ou cadastro em banco.
O caminho existe desde junho, quando a divisão de nuvem da Amazon passou a permitir que donos de sites cobrem desses programas pelo acesso, com pagamento em stablecoins. A verificação e a liquidação ficam a cargo de um sistema da Coinbase, e o USDC na rede Base está entre as opções aceitas.
Pal vai além do presente. Na visão dele, esses agentes podem captar recursos emitindo tokens para bancar projetos de curta duração, de uma semana a um ano, tocar o trabalho e devolver o resultado. A parte que interessa ao mercado é onde essa engrenagem roda. Como ela depende de contratos programáveis, a fatia maior dessa atividade deve cair em redes como Ethereum e Solana, na aposta dele.
Esses programas não escolhem uma rede por preferência. Eles buscam custo baixo e execução rápida, o que empurra operações pequenas e numerosas para as plataformas capazes de absorvê-las.
Onde o capital se concentra
Nenhuma das duas redes, para Pal, vale o mesmo que a outra. Ele é cético quanto à previsão de que a Solana supere o Ethereum em capitalização total, defendida publicamente por Kyle Samani, sócio da Multicoin Capital.
Os números ajudam a entender a cautela. Na medição da DefiLlama, os endereços ativos na Solana chegaram a pouco mais de 3,2 milhões em 24 horas, contra 387 mil do Ethereum. Quando o critério é o dinheiro guardado em aplicações na própria rede, a vantagem se inverte. O Ethereum reúne US$ 54,4 bilhões depositados em protocolos de finanças descentralizadas. A Solana soma US$ 6,7 bilhões no mesmo tipo de aplicação.
A régua que Pal usa para comparar as duas redes é a densidade econômica, a relação entre o valor depositado e o número de usuários. O Ethereum concentra mais capital por usuário, enquanto a Solana movimenta valores menores em um volume maior de operações. Na definição dele, a Solana vive sobretudo de especulação, com apostas de valor pequeno.
Sobre preço, Pal mudou de hábito. Deixou de divulgar alvos públicos porque suas projeções são recortadas e repercutidas fora de contexto. O bitcoin a US$ 1 milhão até 2030 ele trata como uma bandeira da adoção crescente, e admite que o número pode chegar, ainda que empurrado para mais adiante, perto de 2032.
Hoje, o bitcoin é negociado perto de US$ 86 mil, o Ethereum perto de US$ 2,7 mil e a Solana perto de US$ 121.
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