O FMI liberou US$ 138 milhões a El Salvador e deixou a compra diária de bitcoin em xeque
O Fundo Monetário Internacional concluiu na quinta-feira, 1º de outubro, as duas primeiras revisões do crédito concedido a El Salvador, no valor de US$ 1,4 bilhão, e liberou de imediato 101,96 milhões de Unidades de Drawing Especial, o equivalente a aproximadamente US$ 138 milhões. A soma sai enquanto continua aberta a divergência que este site registrou na matéria de ontem, quando o Fundo atribuía as moedas novas da reserva a doações privadas e a Oficina Nacional do Bitcoin publicava compra diária de um bitcoin.
A liberação não confirma a leitura da compra diária nem a nega. Ela declara por que o limite de acúmulo público deixou de valer para aquelas moedas e, ao mesmo tempo, registra que o Fundo não espera nenhum acúmulo novo além das doações documentadas.
O que a revisão acrescenta
O programa tem quarenta meses e começou no início de 2025. São essas duas revisões que liberam o dinheiro. O comunicado do Fundo admite que o país não cumpriu parte das metas, entre elas a de acúmulo de bitcoin, e que as dispensas se apoiaram em correções feitas pelo governo e em compromissos que ele renovou.
A frase que define o caminho é a última do comunicado. Não há, ali, proibição com prazo e multa. Existe uma expectativa registrada para o resto do programa, e a próxima revisão vai passar por cima dela. A diferença importa. Uma regra quebrada convida à contestação. Uma expectativa apenas cria uma pergunta para a próxima mesa.
As moedas que a dispensa cobre
A explicação oferecida pelo governo é de origem particular. O Fundo aceitou a documentação apresentada e entende que não houve uso de dinheiro público nas adições. Cada moeda continua visível na blockchain, e o método de contagem não mudou, o que não permite comparar as duas séries sem saber quais datas cada uma cobre.
A identidade de quem doou não foi divulgada, e o valor de cada doação também não. Reportes sem confirmação oficial apontaram a Tether, que fixou sede no país em 2025, como possível origem, e a empresa não confirmou. Uma reserva que cresce por doação de terceiros, e não por compra do Estado, é o que sustenta a dispensa.
O que ficou no caminho
A medida corretiva apontada pelo Fundo não foi na reserva, foi na carteira digital. O Chivo, aplicativo criado junto com a adoção da moeda em 2021, já havia passado a ter controle majoritário nas mãos de operador privado, e o Fundo agora pede que a exposição restante do Estado seja desfeita por completo.
O que o Fundo não exige é a venda do que já está acumulado. O governo manteve a estratégia de guardar as moedas sem vendê-las, e o Fundo aceitou essa posição nos termos do programa. O que muda é o sentido da conversa. Antes o crédito era para aceitar um limite, agora é para não ampliar.
A economia por trás do desembolso
Esse é o maior empréstimo já liberado pelo FMI ao país. Concluídas as revisões, o desbloqueio sai imediatamente, e a Bloomberg falou em US$ 139 milhões, por arredondamento.
O Fundo elogiou o desempenho econômico. A atividade superou as previsões, com ajuda da melhora da segurança e do aumento da confiança do investidor, e o aperto fiscal avançou dentro do programa. A projeção passa dos 3,9% estimados para 2025 e chega a 4,5% neste ano, com quatro por cento no ano que vem. Os spreads soberanos recuaram de forma expressiva.
A dívida pública é o ponto que fica no relatório. A consolidação fiscal continua necessária para colocar a trajetória da dívida em linha de queda, e as reformas de previdência e do funcionalismo, atrasadas, voltam à pauta. É a performance econômica, e não a política de cripto, o argumento que sustenta o desembolso.
O que observar agora
O precedente que fica é estreito. Limite de acúmulo público não cobre bitcoin que chega por doação privada, nessa revisão específica. Isso abre um caminho para aumentar a carteira sem tocar no orçamento, e é por aí que a próxima revisão vai olhar.
O painel público da Oficina Nacional do Bitcoin é o instrumento mais simples para acompanhar. Se a compra de um bitcoin por dia continuar sendo publicada depois da data desta matéria, a divergência não estará resolvida. Apenas mudou de lugar, porque o Fundo aceitou uma explicação que não dá para verificar de fora.
O bitcoin está a US$ 85.231, 32,4% abaixo da máxima de US$ 126.080 e com alta de 4,9% em trinta dias. A reserva do país, com 7.760 a 7.792 moedas, vale perto de US$ 663 milhões nesse preço. Um governo que mantinha a compra diária contra a orientação do credor sai da avaliação com o dinheiro na conta e a mesma compra sob observação.
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