Visa abre dados de liquidação a credores de cartões crypto
A Visa anunciou que vai combinar a informação de liquidação da sua rede com a infraestrutura de empréstimos em blockchain para ajudar programas de cartão atrelados a stablecoins a conseguir capital de giro. A empresa passa a oferecer às plataformas de crédito onchain uma visão dos valores que um programa tem a receber depois que os pagamentos são quitados, com autorização do cliente, e espera destravar financiamento para um segmento que cresce rápido.
O número que resume o momento é o volume de stablecoin que passa pela rede. O ritmo anualizado de liquidação da Visa nessa moeda ultrapassou US$ 20 bilhões, alta de mais de quinze vezes na comparação anual.
O obstáculo de capital dos cartões stablecoin
Todo programa de cartão precisa cobrir sua obrigação de liquidação diária antes de receber o dinheiro dos titulares. As stablecoins liquidam todos os dias, inclusive em fins de semana e em datas de feriado, e o capital para atravessar esse intervalo precisa vir de algum lugar. Para emissões novas, esse dinheiro é difícil de conseguir. Bancos e instituições tradicionais costumam exigir escala, histórico de operação ou subscrição manual antes de liberar crédito, condições que um programa em estágio inicial raramente reúne.
A aposta da Visa é que o empréstimo onchain resolve essa trava. Com os dados de liquidação combinados ao histórico de transações na blockchain, um credor consegue avaliar o desempenho real do programa em tempo real e automatizar parte do financiamento, em vez de depender de processos manuais.
Como o crédito onchain entra no jogo
Mais de 160 programas de cartão atrelados a stablecoin já operam na rede da empresa, com volume de pagamentos quase 200% maior do que há um ano.
O crédito onchain não é um nicho pequeno. Desde 2020, os protocolos de lending movimentaram mais de US$ 694 bilhões em empréstimos feitos em stablecoin, um mercado global que funciona 24 horas por dia. Boa parte dessa atividade, no entanto, segue concentrada dentro do universo crypto e ainda não sustenta os negócios e os pagamentos do cotidiano.
A ponte entre os dois mundos é o cerne do anúncio. A Visa quer que o crédito onchain transporte essa liquidez de volta ao pagamento do cotidiano, em vez de mantê-la restrita ao mercado crypto.
O modelo já roda na prática com a plataforma Credit Coop. Um contrato inteligente chamado Spigot recebe os recursos da liquidação antes de eles chegarem à conta do programa e direciona o reembolso automaticamente a partir do que entra, em uma lógica que lembra uma conta de depósito controlada, executada em código em vez de procedimentos manuais.
O volume financiado soma mais de US$ 2,5 bilhões desde 2023, com 3 mil eventos de empréstimo e 9 mil de reembolso onchain, sem calote entre os participantes.
A subscrição usa duas fontes independentes de verificação. A Credit Coop recebe os extratos de liquidação diária da Visa por um canal seguro e cruza esses registros com o histórico de reembolsos onchain, o que dá ao credor duas leituras do desempenho real do programa. Quanto mais dados confiáveis, melhor o preço. O custo de captação dos programas participantes caiu em até 30%.
O modelo já roda em escala
O caso Rain mostra o formato em escala. Membro principal da Visa, a rede que opera cartões stablecoin ao redor do mundo financia sua liquidação diária pela Credit Coop desde agosto de 2023, com todas as obrigações quitadas no prazo. Duas outras emissoras sob a Rain, a Moto e a Xplace, usam a mesma infraestrutura de crédito.
A Karta, cartão Visa de crédito para viajantes lançado sob a Rain, usou o histórico acumulado no formato para captar US$ 140 milhões em junho. O desempenho rastreado virou parte do lastro do financiamento maior.
O próximo passo é o financiamento sob demanda. O extrato diário de liquidação passa a disparar a liberação no mesmo dia, no valor exato, sem segurar capital ocioso.
A medida abre caminho para que mais programas nasçam sem depender de bancos tradicionais e para que a liquidez flua por trilhos programáveis. O que a Visa sinaliza é que o crédito onchain, apoiado por dados de pagamento consolidados, deixou de ser uma experiência de nicho para se tornar parte do motor dos cartões do dia a dia.
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