Varejo ganha nova ferramenta de alavancagem com futuros de ações individuais da CME
A CME Group lançou nesta segunda-feira os primeiros contratos futuros de ações individuais da sua história. São 77 contratos no total, sendo 55 no tamanho padrão e 22 micro, todos com liquidação financeira e 23 horas diárias de negociação na plataforma Globex.
O produto cobre mais de 50 empresas americanas de grande capitalização. Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Nvidia, Tesla e a SpaceX estão na lista, junto com nomes como Micron, Pfizer e Walmart. O leque cruza os índices S&P 500, Nasdaq-100 e Russell 1000.
Cada contrato padrão representa 100 ações da empresa subjacente. Cada micro representa 10 ações, com expiração trimestral seguindo o calendário que a CME já usa há décadas nos futuros de índice.
Tudo isso roda na infraestrutura que a CME construiu para cripto. Bitcoin futures desde 2017, ether futures, opções, negociação 24 horas por dia desde maio. Agora o mesmo motor atende ações tradicionais.
Tim McCourt, head global de equities da CME, disse que o lançamento responde a demanda concreta dos traders. A exchange fechou parceria com mais de 35 corretoras, incluindo Charles Schwab, NinjaTrader e Plus500.
O horário estendido é um diferencial. Os contratos rodam 23 horas por dia, sem pausa para o sino de abertura. Dá para reagir a balanços e eventos macro fora do horário regular.
Mat Cashman, da Options Clearing Corp, alertou que a liquidez pode sumar nos horários noturnos. Negociar depois dos balanços, quando a volatilidade sobe, pode ser errático.
O histórico dos futuros de ações nos EUA
Futuros de ações individuais já existiram nos EUA antes. O OneChicago, joint venture entre CME, Cboe e Interactive Brokers, ofereceu o produto por quase vinte anos antes de fechar em 2020 por falta de demanda.
O contexto atual é outro. O varejo cresceu, as IPOs criaram escassez de ações, e a CME tem a infraestrutura que não existia antes. O CEO Terry Duffy admitiu que o primeiro lançamento fracassou, mas o mundo mudou.
Diferentemente de opções, os futuros de ações individuais oferecem alavancagem sem exigir conhecimento de gregos. A margem exigida gira em torno de 15% do valor nocional.
Um micro contrato de uma ação a US$ 200 representa US$ 2.000 em valor nocional. Para o investidor de varejo, a barreira de entrada é baixa, especialmente com a linha micro que a CME refinou nos futuros de índice.
Para institucionais, os contratos abrem portas para arbitragem e hedge mais precisos. Em mercados como o indiano, futuros de ações individuais são a base de fundos que arbitram entre a ação à vista e o futuro.
A ponte com o ecossistema cripto
O braço cripto da CME continua se expandindo. Em maio, lançou negociação 24/7 para futuros de bitcoin e ether, com US$ 50 milhões em 7.200 contratos no fim de semana de estreia. Depois vieram índices de cripto, além da promessa de futuros de volatilidade.
O open interest dos futuros de bitcoin caiu para US$ 8,41 bilhões em abril, o menor nível em 14 meses. A taxa do basis trade comprimiu de 15-20% para 5%. O braço cripto da CME não vive seu melhor momento.
Futuros pagam comissão por contrato. Ao contrário das corretoras que oferecem ações sem taxa explícita, no mercado futuro o trader paga por contrato negociado. É uma diferença estrutural importante.
O sucesso do produto vai depender da liquidez real. Volume e open interest nas primeiras semanas vão mostrar se a demanda se concentra nas gigantes de tecnologia ou se espalha pelas 55 opções disponíveis.
Martin Franchi, CEO da NinjaTrader, disse à Bloomberg que a participação do varejo hoje torna tudo diferente. Stuart Kaiser, do Citigroup, foi cauteloso. O varejo se acostumou a usar opções de compra para obter alavancagem. Para os futuros romperem esse hábito, vai precisar de um empurrão das corretoras que distribuem os contratos, na avaliação dele.
A CME aposta que a combinação de horário estendido, margem reduzida e distribuição ampla cria o ambiente que faltou nas tentativas anteriores. A exchange tem a seu favor uma base de clientes que não existia vinte anos atrás.
Caberá ao mercado responder nos próximos meses, quando volume e open interest vão mostrar se está pronto para futuros de ações individuais.
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