Balanço dividido marca os 5 anos do bitcoin em El Salvador
O país que apostou a soberania monetária no bitcoin completa cinco anos de experimento nesta semana. A reserva estratégica chegou a 7.672 bitcoins, avaliados em cerca de US$ 487,5 milhões, segundo o portal oficial bitcoin.gob.sv, e a promessa apresentada por Nayib Bukele na conferência Bitcoin de Miami, em 5 de junho de 2021, era tripla, bancarizar quem estava fora do sistema, cortar o custo das remessas e atrair investimento estrangeiro. O balanço do experimento depende de quem responde à pergunta.
Para os críticos, o projeto falhou nas promessas que o justificavam.
O que o bitcoin não fez
O cientista Tobias Boos, da Universidade de Viena, resume o fracasso em três frentes, o capital estrangeiro não veio para o setor, a inclusão financeira não saiu do papel e as remessas seguem ignorando a moeda. Uma pesquisa de 2025 assinada por Boos e colegas mostrou que os salvadorenhos que adotaram a moeda eram jovens, homens, urbanos, mais escolarizados e já bancarizados, o que levou os autores a concluir que a adoção em massa não ocorreu.
O problema começava na base, apenas 35,9% dos adultos do país tinham conta bancária em 2021, um dos menores índices da região.
A carteira estatal Chivo pagava US$ 30 em bitcoin para quem se cadastrava, e o National Bureau of Economic Research mostrou que mais de 60% dos primeiros usuários nunca mais voltaram à carteira depois de gastar o bônus. Nas remessas, que representam cerca de 24% do produto interno bruto, com 98% do dinheiro vindo dos Estados Unidos, a promessa de economia esbarrou em um detalhe, o país usa o dólar americano há mais de vinte anos, então não havia conversão de moeda para reduzir, e as carteiras crypto responderam por cerca de 1% das transferências em 2024, abaixo do pico de 1,7%.
Na rua, a aceitação segue rara.
O jornalista Joe Nakamoto passou por 21 lojas de um shopping em San Salvador e só quatro recebiam bitcoin, com apenas uma fazendo isso sem atrito. A exceção continua sendo El Zonte, onde a comunidade Bitcoin Beach mantém uma economia circular de verdade, com hotéis, restaurantes e até a barraca de pupusas da Mama Rosa e o táxi do Napo, que virou frota.
Do outro lado do balanço, o experimento mudou a conversa global.
A prova de conceito que ficou
A adoção por um Estado saiu do campo teórico e virou realidade, e a pergunta que passou a rondar gabinetes, segundo Samson Mow, da JAN3, deixou de ser se um soberano poderia ter bitcoin e virou por que nenhum ainda tinha. O país atraiu nomes como Max Keiser e Stacy Herbert, que chegou a dirigir o escritório nacional de bitcoin, e Bukele promoveu projetos como os Volcano Bonds e a Bitcoin City, engavetados depois que o governo fechou com o Fundo Monetário Internacional um acordo de US$ 1,4 bilhão em dezembro de 2024 e emendou a lei em janeiro para tornar a aceitação voluntária e os impostos pagos em dólar.
O experimento também cobrou um preço político.
O combate às gangues derrubou a taxa de homicídios de 53,1 por 100 mil habitantes, no ano em que Bukele assumiu, para 1,3 em 2025, e muitos salvadorenhos enxergam a troca entre segurança e liberdades de forma diferente dos críticos externos. O estado de emergência segue em vigor desde março de 2022, e organizações como a Human Rights Watch e a Anistia Internacional documentam detenções arbitrárias e enfraquecimento dos freios ao poder executivo.
A aposta deu ao bitcoin a prova de conceito que faltava e a Bukele uma plataforma global, mas o balanço econômico dos salvadorenhos segue em aberto, e é essa a parte que o quinto aniversário ainda não consegue explicar.
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